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Terça-feira, Julho 07, 2009

 

Disque Denúncia e Caça Níqueis


 

A partir de informação recebida pelo Disque Denúncia, nesta manhã de terça-feira, policias da 13ª DP, de Ipanema, apreenderam 42 máquinas de caça níqueis na Travessa Cristiano Laporte, em Copacabana, na esquina com a rua Miguel Lemos. Essa notícia confirma a vulnerabilidade do crime, sobretudo do crime organizado, à participação social e à parceria entre a polícia e a população.
O telefone do Disque Denúncia é 2253-1177.




Segunda-feira, Junho 29, 2009

 

Parte da relação entre obesidade e depressão passa por fatores sociais

Uma pesquisa baseada na Universidade de Toronto, no Canadá, confirmou os resultados de uma série de pesquisas que relacionam a obesidade à depressão. Porém, parte importante da relação passa pela pressão para ser esbelto(a) e malhado(a) e pelo sentimento de não gostar do seu corpo. A pesquisa foi  feita com mais de mil e cem meninos de 13 a 16 e de um número ligeiramente maior de meninas da mesma faixa de idade.... Esses resultados indicam que a relação é, em parte, agravada pela pressão social para ter um corpo definido como bonito.




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Sábado, Junho 27, 2009

 

As mudanças no DHPP e a queda dos homicídios em Pernambuco


POR José Maria Nóbrega – Cientista Político

Em matéria publicada no dia 26 de junho , Eduardo Machado (Jornal do Commercio) coloca que os homicídios vem caindo consecutivamente em seis meses em Pernambuco. Os números de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) recrudesceram em 6,4% nesse período, com 128 mortes a menos entre dez.07/mai.08, com 2.326 mortes por agressão, e dez.08/mai.09, com 2.198 mortes por agressão . Qual (is) a (s) causa (s) para tal redução?
Ainda é prematura a análise para este questionamento, nem consolidados os dados estão, mas prova que Pernambuco vem avançando no quesito “estatística criminal”. Não obstante, podemos especular algumas relações causais para isto. Machado aponta para o acompanhamento semanal das estatísticas criminais por parte do governo do estado. Existem 217 áreas divididas para gestores de segurança que prestam contas semanais sobre os crimes ocorridos em suas jurisdições. Outro ponto revelado por Machado está no foco em chamados “pontos quentes”, que subiram de 37 comunidades, que concentravam 44% dos homicídios de Pernambuco, para 44 comunidades com previsão para ser 77 até 2010. Precisamos saber quais são estes “pontos quentes”, quanto do efetivo das PMs e PCs estão sendo deslocados para tais pontos e qual o real impacto dessa variável na redução dos homicídios/CVLI/mortes por agressão em Pernambuco.
Venho aqui especular o impacto do DHPP nessa política de segurança estadual. Os dados do DHPP demonstram um incremento percentual considerável de sua participação nos inquéritos policiais de homicídios no estado. Sabemos que a maioria dos homicídios esta localizado nas regiões metropolitanas dos estados (Ferreira et ali, 2009 e Kahn e Zanetic, 2009). Entre 50 e 60% dos homicídios do estado estão concentrados em Recife, Jaboatão dos Guararapes, Paulista, Olinda e Cabo de Santo Agostinho, estes municípios da RMR. O foco nesses municípios é ponto nevrálgico de qualquer política que visa reduzir a criminalidade homicida, e a municipalização da segurança pública já é consenso entre os especialistas da área (Kahn e Zanetic, 2009; Mocan, 2003; Acero Velasquez, 2006). Dessa forma, o DHPP, que tem cinco delegacias na região metropolitana, tem papel de destaque no combate à violência homicida.
Dos seis meses apontados pela matéria de Machado, todos eles vêm acompanhados de crescimento de produtividade por parte do DHPP de Pernambuco. Depois da implantação do novo modelo de gestão nesta instituição houve um vertiginoso incremento da formulação de inquéritos policiais dentro do departamento. Entre setembro de 2008 e maio de 2009 o incremento percentual de formulação de inquéritos foi na ordem de 430% (cf. gráfico abaixo).



Entre janeiro e setembro de 2008 a média mensal de inquéritos foi de mais ou menos 15; entre outubro de 2008 e maio de 2009 a média mensal de inquéritos foi de 80,6; entre janeiro e maio de 2009 essa média alavancou para um pouco mais de 90 inquéritos trabalhados pelo departamento. Isso mostra mais eficiência por parte do órgão, mas que precisa ser acompanhado pelo Ministério Público e pelo Judiciário, este último bastante moroso. Isso está refletido na quantidade diminuta de prisões efetivas. Dos 645 inquéritos remetidos pelo DHPP entre outubro de 2008 e maio de 2009, apenas 140 deles, ou 21,8%, terminaram com prisão do autor do crime. Não obstante, pelo tempo de trabalho executado, pode ser um número que impacta significativamente nos crimes violentos letais intencionais/homicídios/mortes por agressão.
A princípio enxergo uma forte relação entre o trabalho do DHPP e a redução dos homicídios em Pernambuco nesses seis meses apontados pela matéria do JC. Contudo, estudos mais sofisticados com os dados fazem-se de extrema necessidade.




Domingo, Junho 21, 2009

 

Disque-Denúncia



Recebi do Zeca
Borges: P
M manda dois para
a cadeia
Hora H Online
 
Agentes
do Serviço Reservado (P-2) do 14º BPM (Bangu) prenderam em
flagrante Diego Romário Grativos de Souza, de 19 anos, no final da
manhã de ontem na Favela Minha Deusa, em Realengo, Zona Oeste.

Segundo foi apurado, os militares foram averiguar uma informação
do Disque-Denúncia e avistaram
Diego na Rua Nogueira de Sá, com uma pistola Taurus,
calibre 9mm, 59 sacolés de cocaína e R$ 44,00 em espécie.
Também
após informe do Disque-Denúncia, policiais do 14º
BPM (Bangu) prenderam, três homens não identificados. Com o trio
havia um revólver calibre 38 SPL, um revólver calibre 32
SPL
, um radio-transmissor e pequena quantidade de
entorpecentes.

Resolvi incluir essa notícia para ilustrar o potencial do Disque Denúncia e para a essencialidade da participação social no combate ao crime.





Quarta-feira, Junho 10, 2009

 

O que está acontecendo com o crime em São Paulo?

Há duas semanas, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo tornou públicos os dados sobre a criminalidade no último trimestre. É um ato corriqueiro em paises com transparência e tem sido um comportamento contínuo no Estado de São Paulo há muitos anos. Mas, para vergonha nossa, ainda há estados no país que não divulgam os dados, há os que os maquilam e adulteram, ou os publicam com muito atraso.

Os dados divulgados talvez não causassem reação não fosse São Paulo o único estado brasileiro a exibir bons resultados há muito tempo: os homicídios vêm baixando há 29 trimestres e São Paulo é, hoje,uma referência internacional no controle da violência, juntamente com Nova Iorque, Bogotá, Medellín e alguns outros lugares. Ocupa, no Brasil, uma posição invejável. Há debates e discordância sobre o as causas dessa redução, mas não a respeito da sua existência.



O estado foi administrado pelo PSDB desde Mario Covas o que introduz uma dimensão político-partidária. Evidentemente, políticos e simpatizantes afiliados a outros partidos se sentem incômodos com o contraste entre o êxito paulista e o fracasso em tantos estados com governadores de seus partidos.

Os resultados recém divulgados não foram tão bons quanto os anteriores. Os criminólogos olham para isso com tranqüilidade; porém alguns políticos, inclusive jornalistas comprometidos politicamente,sem familiaridade com os dados criminais, expressaram sua alegria.

O que houve? Os homicídios cresceram 0,7% no Estado, porém na capital e na Grande São Paulo caíram 6%, uma queda considerável. Mesmo computando o pequeno aumento, a taxa paulista é, de longe, a mais baixa do país. Se os dados seguintes indicarem a mesma tendência à estagnação, muda a forma do fenômeno, que já é conhecida. Chegaram a um plateau.

O que é isso? Algo que acontece com quase todas as políticas públicas bem sucedidas: chegaram ao limite, até onde poderiam chegar. Aconteceu com muitas legislações e com as políticas públicas que se originaram nelas. A “antiga” Lei do Trânsito reduziu as mortes durante quase duas décadas, mas passou a provocar reduções cada vez menores. Alguns chamam isso de efeito-chão (não dá para baixar mais) que, visto positivamente, é um efeito-teto. Os efeitos desse tipo não indicam que chegamos ao limite do possível; indicam que chegamos ao limite dessas políticas.
A “nova” Lei do Trânsito provocou uma redução substancial de mais de quatro mil mortes (vidas salvas) só no seu primeiro ano. Infelizmente, a implementação das mesmas medidas ficou cada vez mais desleixadas e as mortes no trânsito voltaram a aumentar.

Quando há um grande crescimento ou uma grande redução, a composição dos homicídios se altera. Vítimas e assassinos não são os mesmos quando as taxas são altas e quando são baixas. Os homicídios não são todos iguais; há tipos muito diferentes: difere a vítima, difere o autor, difere a relação entre eles, difere a arma, difere o local da ocorrência e muito mais. No Brasil das últimas décadas, o crescimento dos homicídios tem uma vinculação íntima com o tráfico de drogas e de armas e com o crime organizado (sem colocar o grau de “organização” dos traficantes num nível empresarial). Quando há explosões de homicídios, as taxas de crescimento das mortes masculinas é substancialmente mais alta do que a das femininas. Quando houve redução rápida, ela foi maior entre os homens. As políticas públicas aconselhadas para paises com altas taxas de homicídio são claramente diferentes das aconselhadas para países com baixas taxas.

Quando o êxito das políticas anteriores tem rendimentos decrescentes significa que há necessidade de novas políticas, assim como de aperfeiçoamento das anteriores. Reduzidos os homicídios relacionados com o tráfico, cresce a significação relative dos homicídios entre íntimos. Porém, a
prevenção de homicídios entre íntimos difere muito da prevenção de homicídios associados ao tráfico etc.

Crimes diferentes não têm a mesma fidedignidade, nem o mesmo peso, daí a dificuldade em construir índices de criminalidade – nos mais simples, que simplesmente somam os crimes, o furto de um celular pesa tanto quanto um homicídio, um absurdo. As pesquisas de vitimização mostram que a sub-enumeração de alguns crimes é de tal magnitude que desfigura os dados. Um “crescimento” pode não significar um crescimento do crime, mas da confiança nas instituições. Há perigosos viéses seletivos: escolher os que mais cresceram para desacreditar a política
ou os que mais caíram para mostrar seus méritos. Um dos artigos publicados mostra um crescimento de 36% nos latrocínios, sem informar que os latrocínios representam uma percentagem pequena do total de mortes violentas intencionais. Naquele trimestre houve 94 latrocínios, 1001 homicídios culposos no trânsito, e 1207 vitimas de homicídios intencionais. A redução nos homicídios culposos no trânsito foi maior que a totalidade dos latrocínios no trimestre...


Outro dado importante tem a ver com a distribuição geográfica dos crimes com estatísticas confiáveis. Há muita variação entre as taxas dos municípios e das regiões paulistas, sugerindo fenômenos mais
localizados que requerem atenção concentrada: algo diferente está acontecendo nessas áreas.

Precisamos melhorar a qualidade dos dados e reduzir a sub-enumeração dos  crimes. Enquanto isso não acontece, temos que trabalhar com os mais confiáveis: os que deixam cadáveres, assim como furtos e roubos de veículos, dada a obrigatoriedade do registro para obter o seguro. E o leitor deve se informar para poder ler criticamente o que publica.


Gláucio Ary Dillon Soares


Publicado no Correio Braziliense

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Segunda-feira, Junho 08, 2009

 

Mudanças frequentes e suicídio de adolescentes


Há uma escala de estresse na vida que inclui muitas mudanças, inclusive as consideradas boas, como casar com alguém que se ama e nos ama. Mas a tendência é clara: quanto mais mudança na nossa vida, tanto mais estresse e, secundariamente, os problemas associados com o estresse.

Embora, na maioria dos países estudados, a taxa de suicídios tenda a subir com a idade, sobretudo com as idades avançadas, em vários ela sobe na adolescência e na maturidade jovem. Entre esses, em alguns ela desce depois, na maturidade, em outros não. O que explicaria esse crescimento, nos lugares em que ele acontece? Talvez comecemos a responder essa difícil pergunta, cuja resposta necessariamenete inclui muitos fatores, comparando quem não se suicida com quem se suicida (ou tentam seriamente). Uma pesquisa desse tipo acaba de ser feita na Dinamarca.

O que descobriram? Que quanto mais a família se mudava de um lugar para outro, maior o risco de suicídio. Adolescentes entre 11 e 17 anos que mudaram dez ou mais vezes tinham um risco de tentar o suicídio quatro vez mais alto do que os que se mudaram que não se mudaram; os que se mudaram menos, entre de três a cinco vezes ficavam no meio: o dobro dos que nunca se mudaram e a metade dos que se mudaram dez vezes ou mais. Por conveniência de pesquisa, somente os que se mudaram de uma residência para outra na mesma rua não foram computados como mudanças.

O pesquisador principal, Dr. Ping Qin, do Centre for
Register-Based Research
na Aarhus University, está consciente de que a relação não é causal nem direta. As mudanças que trazem outras mudanças, como de escolas e grupos de amigos, são mais drástica. Eu hipotetizo que mudar entre lugares conhecidos é menos estressante do que para lugares desconhecidos.

Há muitas endogenias possíveis. As famílias que se movem mais podem ser menos estáveis como famílias, também podem enfrentar mais problemas financeiros, variáveis que afetam diretamente os adolescentes. 

Esse estudo confirma outros que revelam que as crianças e adolescentes que mudam muito de residência têm mais alto risco de doenças mentais. Há outras variáveis que também são afetadas: o rendimento na escola, o risco de abandono da escola, assim como a sexualidade prematura.

Fonte: The Archives of General Psychiatry.

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Sexta-feira, Junho 05, 2009

 

Fazendo o disque-denúncia funcionar

 
http://www.ssp.sp.gov.br/home/noticia.aspx?cod_noticia=16136 
 
Dossiês do Disque Denúncia de Campinas ajudam a polícia a elucidar crimes

Quarta-Feira, 3 de Junho de 2009
Iniciativa pioneira na polícia paulista, os dossiês elaborados na sede do Disque Denúncia de Campinas têm ajudado os investigadores a desvendar crimes que poderiam permanecer impunes por falta não só de provas, mas até mesmo de indícios que levem a pistas mais consistentes para descobrir a autoria. Desde 2002 até abril de 2009, o Disque Denúncia recebeu 126.278 ligações, que geraram 72.901 orientações ao público e 53.377 denúncias. Do total de denúncias – a maioria sobre tráfico de drogas, a polícia solucionou 5.350 casos, já que várias denúncias se referiam ao mesmo caso ou eram infundadas ou inconsistentes.


Em geral, a investigação clássica de polícia judiciária numa delegacia ou distrito policial começa quando uma dupla de investigadores, os tradicionais "parceiros", recebe da "chefia" a cópia do boletim de ocorrência de um crime de autoria desconhecida. Eles pegam uma viatura e saem, em diligências, tendo apenas as informações contidas no boletim para iniciar a investigação. O histórico dos boletins de ocorrência – um resumo do fato –, quase sempre não fornece pistas que levem ao paradeiro dos criminosos. E os "parceiros", que contam com poucos recursos, devem driblar as dificuldades e resolver o quebra-cabeça.

Mas em Campinas, desde 2002, os policiais civis de distritos e unidades especializadas contam com um valioso aliado: os dossiês redigidos no Disque Denúncia por uma equipe composta por duas escrivãs e duas investigadoras,que são coordenadas pelo delegado Marcelo Favero, além de funcionários da Organização Não Governamental (ONG) "Movimento Vida Melhor". Esses documentos sigilosos recebem uma capa e ficam ‘trancafiados’ na sala que o delegado tem no Disque Denúncia. Não estão disponíveis nem na intranet da Polícia Civil. Se alguma autoridade requisitá-los, vai receber uma cópia em mãos.

Equipe afinada

A equipe de policiais civis foi "escolhida a dedo e está comigo desde o início, quando surgiu o Disque Denúncia de Campinas, em 2002", comenta Favero, que também é delegado titular do 1º Distrito Policial de Campinas, e já atuou em vários outros distritos da cidade e na Delegacia de Investigações Gerais (DIG). O Disque Denúncia conta, ainda, com mais seis policiais militares e dez funcionários da ONG Movimento Vida Melhor, que têm seus próprios coordenadores.

Os dossiês são um relatório completo e detalhado da ocorrência de crimes que se repetem numa mesma área, envolvendo os mesmo autores e seu "modus operandi" ou a forma como os criminosos agem. Reúnem um pouco do relatório policial com informações técnicas e precisas. Um dossiê ou relatório começa a ser gerado, quase sempre, quando chegam quatro ou mais denúncias com as mesmas características. Todas a denúncias ficam armazenadas num banco de dados com programa específico. As policiais civis e funcionários da ong tiram desse banco de dados as informações para redigir o dossiê. Mas é o delegado Favero que dá a orientação geral.

O documento contém nome e/ou apelido do suspeito, natureza do fato (furto, roubo, tráfico, moeda falsa, pedofilia, etc.), horários, organogramas, se está em andamento e as providências tomadas. Em média, cada dossiê tem 20 páginas, mas pode chegar de oito a 150. A capa do dossiê recebe uma cor que identifica a natureza do crime, um número seqüencial, título e circunscrição policial (distrito e batalhão da PM). O armário do delegado Favero no Disque Denúncia já acumula mais de 400 dossiês.

Hierarquia do crime no organograma

No conteúdo, o que é considerado o "mais importante" pelo coordenador é o organograma, pois, no caso de tráfico e crime organizado, mostra a "hierarquia" dos criminosos. Mas eles trazem também mapas da área dos fatos, histórico detalhado do ocorrido, veículos e tipos de armas que estariam sendo usados pelos suspeitos. Crimes de natureza grave, como pedofilia, tráfico, moeda falsa, roubo e outros estão todos registrados em dossiês. Esses documentos confidenciais estão disponíveis também para consultas da Polícia Militar para dar mais eficiência ao policiamento preventivo.

Apesar de ser uma ferramenta valiosa na luta contra o crime, os dossiês ainda são poucos consultados pelos distritos policiais de Campinas. Mesmo assim, são enviados para as unidades policiais. "Quem mais solicita é o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP)", fala Marcelo Fávero, seguido pela Delegacia Especializada Anti-Sequestro (Deas), Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), e Delegacia de Investigações Gerais (DIG). Por orientação do delegado Fávero, os dossiês ajudam muito nas investigações do 1º DP, que fica no Jardim Ipaussurama e atende uma população de 240 mil pessoas.

Premiação

O Disque Denúncia de Campinas atende 24 horas pelo telefone (0xx19) 3236-3040 e foi criado em 2002 por iniciativa da Associação Comercial e Industrial de Campinas. Desde 2002 até abril de 2009, o Disque Denúncia recebeu 126.278 ligações, que geraram 72.901 orientações ao público e 53.377 denúncias – muitas delas sobre o mesmo crime ou infundadas. Do total de denúncias – a maioria sobre tráfico de drogas, a polícia solucionou 5.350 casos.

A idéia inovadora de fazer os dossiês a partir das denúncias anônimas e encaminhá-los às unidades policiais para facilitar as investigações rendeu uma premiação para a Delegacia Seccional de Polícia de Campinas, que foi inscrita no IV Prêmio Polícia Cidadã com o projeto "Elaboração de dossiês - base para investigações policiais". O projeto foi um dos nove vencedores na categoria "Ações Vencedoras", com cerimônia de entrega realizada no último dia 5 de abril, na Sala São Paulo, na região central da Capital.

Transcrito de Gabriel Rosado

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Quinta-feira, Maio 21, 2009

 

Excesso de peso e risco de suicídio entre adolescentes

Ter excesso de peso aumenta o risco de suicídio entre adolescentes americanos. Pior: pensar que é gordo ou, principalmente, gorda, também aumenta. Essa pesquisa examinou 14 mil adolescentes e relacionou um indicador clássico de gordura, o BMI (Body Mass Index) e as tentativas de suicídio. Relacionou, também, a crença em ser gordo ou gorda e as tentativas de suicídio. Monica
Swahn, Ph.D., pesquisadora, confirmou que além da gordura, a crença na gordura aumentam o risco de suicídio. O maior risco era entre os que conjugavam os dois fatores: eram obesos e se preocupavam com isso.  A associaçao vale para os dois sexos, quebrando a expectativa de que valeria apenas para as meninas.

Nao há dúvida de que o excesso de peso é um problema para a saúde e que, nos Estados Unidos, é um problema para a saúde pública - assim como em certas áreas e classes no Brasil. Nao obstante, transformar uma recomendaçao médica em um padrao comportamental obrigatório gera outras doenças, como bulímia, anorexia e até suicídios.


Fonte: Journal of Adolescent Health.


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Terça-feira, Maio 05, 2009

 

Doentes mentais: criminosos ou vítimas?



As pessoas com alguns tipos de doenças mentais cometem mais crimes do que as que não padecem dessas mesmas doenças. Essa é uma relação provada e demonstrada em Criminologia através de pesquisas feitas em diferentes países. Não obstante, pesquisa recente dirigida por Brent Teasdale, professor na Georgia State University, produziu novas informações: as doenças mentais aumentam mais o risco do paciente de se tornar vítima de um crime do que de cometer um crime.

Teasdale foge dos rótulos mais ambiciosos das doenças mentais e se concentra em comportamentos e sintomas mais específicos. Pacientes que sofrem de alucinações, por exemplo, são vítimas preferenciais de crimes, o mesmo passando com pacientes com delírios. O risco de vitimização é multiplicado quando o paciente está drogado ou alcoolizado, ou não possui residência. Contudo, morar ou não na rua é uma variável associada com a vitimização de direito próprio. Os moradores de rua são vitimas de crimes com muito mais freqüência do que os que tem um “ponto”, um lugar onde dormir. Essa é uma relação que se explica por várias teorias, inclusive a dos encontros, a de atividades de rotina e a de oportunidades. Os moradores de rua passam mais tempo expostos a agentes do crime do que os demais, que ou têm residência fixa ou dispõem de um ou mais “pontos” onde passar a noite e/ou parte do dia. Os momentos em que um morador de rua passa num ponto protegido reduzem o risco de crime. Essa redução é de particular importância à noite, como previsto pela Teoria dos Encontros. Essa teoria propõe que nas sociedades modernas o risco de um encontro com um criminoso é mais alto à noite. Para evitar esses encontros, é mais importante ter onde ficar à noite do que ter onde ficar durante o dia.
Teasdale quantificou o risco. Os doentes mentais que experimentam delírios têm o dobro do risco de vitimização do que os que não os experimentam. A população tem receio dos doentes mentais, particularmente se esses apresentarem sintomas como delírios e alucinações. De fato, as doenças mentais aumentam a probabilidade de cometer um crime, violento ou não. E, entre os doentes mentais, os que apresentam delírios e alucinações cometem mais crimes do que os que não apresentam esses sintomas. Essas relações são verdadeiras, mas provocaram um medo generalizado e um estigma.
O estigma pode aumentar a violência preventiva contra doentes mentais. Creio que, na maior parte dos casos, as pessoas tomam medidas e ações evasivas e algumas cometem violências verbais, mas algumas cometem violências físicas que, hipotetizo, não seriam cometidas se as vítimas fossem pessoas “normais”.
Os doentes mentais, nos momentos da doença, podem estar confusos e voltados para dentro, distorcendo suas percepções do ambiente que os circunda. Percebem pouco e avaliam pior. Nas explosões de delírios e alucinações as pessoas encarregadas, inclusive voluntariamente, de cuidar dos pacientes podem fugir dos pacientes e da sua responsabilidade, deixando-os à mercê dos encontros negativos. Não é fácil lidar com delírios e alucinações.

Os resultados sugerem algumas medidas preventivas. Parentes e amigos de pacientes mentais, em geral, devem ser alertados a respeito da maior vulnerabilidade deles, em particular dos que apresentam delírios e alucinações. Nos paises em que predomina a “lei de Gerson” e o limiar da responsabilidade é baixo, esse abandono talvez seja mais freqüente e os riscos para o paciente muito mais elevados.

As conclusões de Teasdale foram baseadas numa pesquisa chamada de MacArthur Violence Risk Assessment Study, que acompanhou durante um ano pacientes que tiveram alta de hospitais psiquiátricos.




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Sábado, Maio 02, 2009

 

Uma corrida silenciosa entre a vida e a morte



Há uma corrida silenciosa entre a vida e a morte e nossas vidas podem depender dessa corrida. Harris, Thomas, Fisher e Hirsch publicaram, há poucos anos, um artigo chamado Murder and Medicine - The Lethality of Criminal Assault 1960-1999, sobre a letalidade das armas.
De que trata? Trata da letalidade das armas mais mortais, as chamadas assault weapons. A letalidade delas aumentou muito; afinal, são feitas para matar e a tecnologia da morte “progrediu”. Progrediu no projétil, no combustível, na arma. Mata mais. Essa é a letalidade abstrata, técnica. Porém, a letalidade estatística caminhou no sentido oposto – diminuiu. Estatisticamente, mais pessoas atingidas por projeteis de assault weapons sobreviveram nos últimos anos do que há muitos anos. Por que?
É um paradoxo. Como explicá-lo?
A resposta reside na evolução paralela da tecnologia da vida. Em primeiro lugar, o atendimento imediato, no local, por pessoal chamado de para-médico, evoluiu, salvando vidas. As ambulâncias, que antes só serviam para transportar feridos, também evoluíram, são mais equipadas, permitindo cuidados aos feridos que, antes, só estavam disponíveis nos hospitais. A rapidez do atendimento é fundamental e se correlaciona negativamente com a letalidade. Quanto mais rápido for o atendimento, menor a percentagem dos pacientes que morrem.
A rapidez do atendimento não depende, apenas, de ambulâncias mais equipadas e de pessoal mais treinado: depende, também, de fatores culturais, políticos e cívicos. Melhorias no trânsito permitem maior rapidez no atendimento. Depois de algumas administrações mais competentes, o trânsito flui melhor. O civismo também contribui, por exemplo, com os motoristas abrindo espaços para as ambulâncias. Em culturas com baixo nível de civismo, isso não se dá e alguns tentam, inclusive, se aproveitar da rota rápida aberta pela ambulância ou pelo carro de bombeiros. São ações características de sociedades com um nível de cultura cívica muito baixo.
Alguns leitores devem estar se perguntando se esse nível mais elevado e funcional de cultura cívica existe de verdade. Existe, mas não é igual em todos os lugares: é mais desenvolvido e funcional em alguns países do que em outros e, dentro do mesmo país, em umas regiões do que em outras. Juntas, essas variáveis formam estruturas de risco que se repetem ano trás ano. Devido a essa estabilidade estrutural, nos permitimos afirmar, por exemplo, que, com os dados disponíveis até poucos anos atrás, a taxa de mortes violentas de homens jovens e maduros (menos de 65 anos) na Rússia era nove vezes a de Israel e doze vezes a da Grã-Bretanha. Essa estabilidade afeta todas as mortes violentas. Por exemplo: as taxas de mortalidade por dez mil veículos. Ano trás ano, os estados com taxas mais altas estão no Nordeste, no Norte e no Centro-Oeste.
Após a chegada ao hospital, há melhorias que ajudaram a elevar a percentagem dos que sobreviveram sobre o total dos atingidos. A criação de centros especializados de trauma, a disponibilidade de equipamento muito mais sofisticado e o atendimento por pessoal mais competente, contribuem para reduzir a taxa de mortalidade.
Esses processos interceptam nossa existência. Somos afetados pelas velocidades com que chegam a nós. Infelizmente, a transferência da tecnologia da morte talvez seja mais rápida do que a da vida. Leva menos tempo comprar uma arma mais letal do que equipar hospitais e ambulâncias e treinar melhor o pessoal do atendimento e da emergência.

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Sábado, Abril 25, 2009

 

VIOLÊNCIA POR MULHERES



As mulheres também podem ser violentas numa relação íntima. Porém, o contexto da relação influencia o tipo de violência. Swan, Gambone, Caldwell, Sullivan e Snow, numa revisão da literatura, concluíram que a violência pelo parceiro com freqüência anda junto com a violência feminina. Contrariamente à expectativa, a violência, tanto física quanto psicológica, dos homens e das mulheres em relações intimas seria semelhante. Porém, há muita violência masculina sem violência feminina, mas pouca violência feminina sem violência masculina. Boa parte dos atos femininos muito violentos é causada por medo ou numa forma de auto-defesa em situações de conflito violento.
Alguns tipos de violência são notoriamente masculinos, como o abuso sexual, controle na base da força e perseguição. Além disso, as diferenças de peso e de força fazem com que as mulheres tenham uma taxa muito mais alta de ferimentos e mortes.
No que concerne a "primeira violência", o ato ou atos que iniciam uma cadeia de violência recíproca, nova surpresa: as mulheres iniciam a violência com freqüência semelhante à dos homens, particularmente nos níveis mais baixos de violência em cadeia.
Um tipo de violência doméstica que tem sido chamado de terrorismo íntimo, em que os níveis de violência são mais altos e a violência constante, quase sempre é feito por homens.
E as conseqüências? A revisão de Swan et alii não deixa lugar a dúvidas: a violência afeta mais as mulheres do que os homens, deixa mais seqüelas. Essa é uma área que precisa ser mais pesquisada pois são poucas as pesquisas que acompanham as vítimas.
Conclusões? A maior participação masculina em formas institucionalizadas de violência, como guerras, inclusive civis, revoluções, rebeliões, greves violentas, e em comportamentos individuais violentos, como homicídios e suicídios, fez com que as pesquisas respondessem ao maior peso dos atores masculinos. As pesquisas proporcionaram o crescimento de um sólido corpo de conhecimentos. Porém, o gênero pesa nas relações causais e nos padrões comportamentais na violência individual, o que significa que o arcabouço teórico construído para explicar a violência feita por homens é menos adequado para explicar a violência feita por mulheres. Menos adequado não significa inútil nem prejudicial, mas sua aceitação pouco crítica pode aumentar o risco de que novas pesquisas sobre a violência feminina seja pautada por expectativas criadas a partir do demonstrado entre e para os homens.
O que falta? Pesquisas dirigidas especificamente para entender e explicar a violência feminina a partir de orientações teóricas que permitam a inovação.
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Quinta-feira, Abril 23, 2009

 

A hipótese da substituição das armas


A hipótese da substituição das armas, para alguns, é tão intuitiva que diferentes pessoas sem formação ou sequer informação adequada em Criminologia chegaram a ela. Não obstante, ela não se originou, com muitos parecem acreditar, na crença de que o propósito criminoso é inabalável e que, se uma arma de fogo não estiver disponível, ele (a) usará outra.
Mas, se tentar e não conseguir, o que acontece? Neste ponto a teorização se bifurca, uns afirmando que o criminoso continuará tentando até atingir o objetivo (ou até ser preso ou morto) e outros de que ele (ou ela) poderá ou não seguir tentando, dependendo das circunstâncias. A proposta de Wolfgang é muito diferente: ele afirma que a intenção do atacante, seja de intimidar, ferir, incapacitar ou matar se revela na escolha da arma a ser usada. Wolfgang deduz a intenção a partir da escolha da arma.
O ponto de contacto com as teorias mencionadas anteriormente reside em que, para Wofgang, a escolha de arma de fogo já revelaria um criminoso decidido a matar. Essa decisão foi tomada como absoluta pelos partidários das armas que agregaram a conclusão de que continuarão tentando até conseguirem matar, ainda que tenham que trocar a arma (de fogo por outra qualquer).
Porém, Mischel (1968: 135) demonstrou que apenas 3% dos assaltantes com armas de fogo tinham ficha policial devido a crimes letais ou, pelo menos, sérios, com outro tipo de armas que não de fogo, em contraste com 25% dos que usaram facas e semelhantes. Essa diferença também pode ser explicada como resultando da maior disponibilidade de facas. Uma conclusão se impõe: os assaltantes não estão "fadados" a usar a mesma arma, embora possam formar hábitos.
Russell, em 2000, concluiu seu trabalho afirmando que a tese da substituição prejudicou o avanço da teoria criminológica, desviando recursos mentais da busca de dados concretos que definam até que ponto existe a substituição em cada contexto (o ponto não está obrigado a ser o mesmo em diferentes contextos).

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Terça-feira, Abril 21, 2009

 

AS ARMAS DE FOGO E O CRESCIMENTO DOS HOMICÍDIOS NO BRASIL

As armas de fogo são responsáveis pelo crescimento dos homicídios em vários períodos, regiões e unidades da federação. Os sinais de alarme sobre o importante papel atribuível às armas de fogo no crescimento dos homicídios não são de hoje. Temos tido muitos estudos localizados que demonstraram exatamente essa tendência. Um deles foi feito aqui, no DF: desde 1979, o número absoluto anual de homicídios cresceu no Distrito Federal. Até 1985, eram menos de 200 por ano; em 1987, já eram mais de 300; em 1990, mais de 400 e em 1993, mais de 500. Entre 1980 e 1991, a população cresceu 36% mas os homicídios cresceram 261%. Houve um rápido crescimento da violência. A taxa por cem mil habitantes que, em 1980, era de 13,7, passou a 36,3 onze anos depois.
A década de 80, chamada de "a década perdida", foi marcada pelo crescimento da violência em vários pontos do Brasil e não somente no Distrito Federal. Foi a pior década da economia brasileira e latino-americana em muito tempo. A atual crise mundial é mais profunda e generalizada. Muitos afirmam que há relações entre crises econômicas e o crescimento dos homicídios. Não obstante, aquela década foi marcada, também, por um grande aumento no uso de drogas fortes, particularmente o crack e a cocaína e por um crescimento no uso de armas de fogo nos homicídios. Quaisquer que sejam as causas - drogas, recessão, quebra dos valores familiares etc. - os instrumentos da morte foram as armas de fogo, que passaram de 1,5 por cem mil, em 1980, a 36,3, em 1991. A taxa dos homicídios que usaram outros meios permaneceu estável: era 10,8 por cem mil em 1980 e 11,1 por cem mil em 1991. Quase todo o aumento brutal nos homicídios ocorrido entre 1980 e 1991 foi com armas de fogo. No DF, entre 1979 e 1995, os homicídios com armas de fogo aumentaram, aproximadamente, 25 por ano, durante o período.
Antes de 1981, os homicídios com armas de fogo representavam aproximadamente um sexto do total; a partir da década de noventa, passaram a representar mais do dobro dos homicídios com outros meios.
Também cresceram rapidamente os suicídios com armas de fogo: de 1979 a 1984, 18% dos suicídios no Distrito Federal foram com armas de fogo; de 1985 a 1989, saltaram para 28%, e entre 1990 e 1995, atingiram 37%.

Os acidentes também revelam um aumento de mortes devidas às armas de fogo. Estes dados justificaram as campanhas preventivas, contra a proliferação de armas, empreendidas por diferentes secretarias estaduais de segurança.
Há problemas estatísticos no calculo da violência no caso do Distrito Federal: um grande complicador é o Entorno, com um alto número de pessoas residentes que estudam, trabalham e se divertem no Distrito Federal. Muitos morrem no Distrito Federal e muitos matam no Distrito Federal. Por não serem residentes, aparecem nas estatísticas de mortalidade do Distrito Federal, mas não nas de população. Além disso, muitas pessoas são feridas no Entorno e trazidas para os hospitais do Distrito Federal, onde morrem.

Qualquer análise séria dos homicídios e dos suicídios tem que levar em conta as armas de fogo. Elas são o principal instrumento dos homicídios dolosos e sua importância não para de crescer. Foi somente a partir de 2003, ano em que foi promulgado o Estatuto do Desarmamento, que a taxa dos homicídios começou a baixar, mas esse efeito (e continua) estava espacialmente concentrado.

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Quinta-feira, Abril 16, 2009

 

Fatores de Risco na Delinqüência Juvenil


<font size="4"><font color="#800000">Fatores de Risco na Delinqüência Juvenil</font></font>

Inúmeras pesquisas, em vários países, revelaram uma associação entre o consumo de drogas (incluindo as bebidas alcoólicas) , e delinqüência e criminalidade juvenis. Marvin Dawkins foi mais adiante, demonstrando que tanto “drogas” quanto “delinqüência e criminalidade juvenis” são categorias amplas, que incluem muitas coisas diferentes: drogas incluem álcool, drogas leves (como a maconha) e pesadas (como a heroína); delinqüência e criminalidade incluem desde pixação e distúrbio da paz e da ordem até o homicídio. O poder de explicação do consumo de drogas variava de pesquisa para pesquisa: muito, numas; pouco, noutras. Outros pesquisadores contribuíram para colocar a delinqüência e criminalidade num contexto mais complexo: Simonds e Kashani descobriram que o número de drogas diferentes consumidas explicava melhor os crimes contra a pessoa do que o tipo de droga. Yu e Williford elaboraram uma teoria de comportamentos em cadeia: quanto mais cedo o/a menor consome drogas socialmente mais aceitas - incluindo álcool e cigarros - tanto mais cedo consumirá drogas ilegais (maconha e cocaína) que, por sua vez, fazem com que um número maior deles cometa crimes. Esta cadeia pode ser interpretada, bioquimicamente, ou dentro de um quadro social, com ênfase na falta de controle familiar e institucional. Sem a pesquisa, a teoria dos comportamentos em cadeia seria uma entre muitas, sem validade empírica. Foi neste contexto teórico que Dawkins realizou a sua pesquisa crucial que, com apenas 312 jovens delinqüentes do sexo masculino em reformatórios, é hoje uma das mais importantes. O consumo de álcool está correlacionado com todos os comportamentos delinqüentes, mas os consumidores de maconha e de heroína estão concentrados em um número menor de ilícitos. A maconha, por exemplo, está associada ao comportamento delinqüente de gangues como a violência entre gangues, pequenos furtos de lojas, conflitos com a polícia etc. Já o consumo de heroína se relaciona com a violência e a falta de controle, expressos na seriedade da lesão provocada na vítima, na agressão a professores e supervisores, no tipo de arma usado nos crimes. Umas drogas se associam mais com alguns tipos de crime e violência do que outras. São respostas culturais.

Dawkins também buscou saber qual o peso relativo das drogas em comparação com variáveis de importância demonstrada - no contexto americano - como ter sido preso e/ou condenado; ter cumprido pena e a raça do adolescente. A ficha policial e judicial do delinqüente pesa mais do que o consumo de drogas na explicação de doze comportamentos delinqüentes; o consumo de drogas pesava mais em seis comportamentos (entre os quais: conflito com a polícia; guerra de gangues; furto de partes de automóveis) e a raça em apenas dois: problemas com os pais e conflito físico com o pai, sublinhando a difícil relação entre filhos e o pai nas famílias negras americanas.

O peso da “ficha” - ou história policial e judicial - passa por várias explicações. Uma hipotetiza a socialização negativa, que nos diz que as instituições de recuperação de juvenis seriam “escolas do crime”, argumento preferido pela esquerda, nos Estados Unidos como no Brasil. Supõe que as instituições ou não cumprem a sua missão de recuperação ou a cumprem mal. Se cumprissem, os que passassem por elas não voltariam a delinqüir ou, pelo menos, teriam taxas de novas delinqüências iguais à da população. A hipótese da seletividade propõe que os presos já diferiam dos demais antes da prisão: seriam mais violentos, teriam cometido crimes mais sérios etc. Os policiais e a justiça não podem ficar de fora: a teoria dos rótulos propõe que há comportamentos não necessariamente delinqüentes que são aprendidos na instituição e que são identificados pela polícia e pela justiça, aumentando o risco de prisão e de condenação do jovem.

Estas explicações não são mutuamente exclusivas e há outras. As raras, difíceis e custosas pesquisas em que há comparações entre delinqüentes e amostras-controle da população jovem, mostram o peso da classe social, da educação, da estrutura familiar, da raça, da condição migratória, entre outras. No Brasil, estas são áreas sobre as quais se “acha” muito e se pesquisa pouco. Finalmente, a Teoria dos Encontros propõe que os comportamentos violentos e delinqüentes são aprendidos. Alguns deles, particularmente os violentos, são aprendidos em casa. Há indeterminações na aprendizagem e na execução de crimes. Alguns jovens, potencialmente abertos à criminalidade, não entram em contato com agentes socializadores negativos; outros chegam a aprender comportamentos criminosos, mas a oportunidade para executá-los não aparece durante o período em que estão disponíveis para o crime.

A aplicabilidade dos resultados destas pesquisas ao Brasil é uma questão empírica, em aberto. Somos um país muito mais violento, com o dobro dos homicídios e cem milhões de habitantes a menos do que os Estados Unidos. Os jovens contribuem desproporcionalmente tanto para o rol dos mortos quanto para o rol dos assassinos. Portanto, o problema é muito mais grave no Brasil. Porém, a magnitude e a complexidade da violência no Brasil requerem mais do que meia dúzia de grupos de pesquisadores. Enquanto o estudo empírico dos problemas brasileiros não se transformar em missão precípua, nossos jovens continuarão matando e morrendo sem que saibamos por quê.






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Sexta-feira, Março 27, 2009

 

Mulheres que morrem e mulheres que matam

Por Gláucio Ary Dillon Soares
(baseado em artigo publicado no Jornal do Brasil, de 27 de março de 2009)

Cada país tem maneiras prediletas de olhar as coisas. Quando pegamos um avião e vamos de um país para outro mudam a geografia, a economia, às vezes o idioma. As maneiras de analisar as coisas também mudam. O Brasil tem uma tradição de ver fenômenos como os crimes e os homicídios a partir de conceitos como “o capitalismo”, a pobreza, a favelização, a desigualdade, o “desenvolvimento”, um velho explicador de tantas coisas, e outras variáveis “estruturais”. Em décadas passadas, 1950 a 1980 (minha estimativa), tudo se explicava pelo desenvolvimento ou pela sua negação, o subdesenvolvimento.
Não obstante, talvez o principal determinante da vitimização por homicídios seja o gênero: de 1980 a 2005, foram assassinados 760.885 homens e 70.907 mulheres no Brasil, o que equivale a uma mulher para cada onze homens. Essa relação não é uma constante, mas é estável, variando pouco no tempo e no espaço brasileiros. De 1980 a 1989 foi de 10,1; de 1990 a 1999 foi de 10,5 e de 2000 a 2005 foi de 11,6. Mudou pouco; não obstante se nota tendência a aumentar. Em outro trabalho, demonstramos que a razão de vitimização entre homens e mulheres aumenta quando há “explosões” de homicídios (como, recentemente, em Alagoas e na Bahia) e diminui quando há redução dos homicídios (como em São Paulo). Quando há um aumento rápido no número de homicídios, o aumento tende a vitimar mais homens e jovens; quando, através de políticas inteligentes, há uma forte redução, ela beneficia mais os que tinham taxas mais altas. Os homicídios não são todos iguais – há tipos e subtipos. No contexto brasileiro, crescimento rápido quase sempre significa tráfico, entrada de drogas, de armas de fogo, e políticas públicas inadequadas. Os homens são as maiores vitimas dessas explosões. Por sua vez, as políticas inteligentes focalizam os tipos com maior número de mortes, beneficiando desproporcionalmente os homens.
A razão entre as taxas dos gêneros não varia muito no espaço brasileiro, a despeito de amplas diferenças econômicas e sociais, mas difere muito entre os países. Em 1990, no bloco dos países com economia de mercado desenvolvida, a taxa masculina era, aproximadamente, um terço maior do que a feminina. Em regiões com taxas muito altas de homicídio, a África Sub-Saara e a América Latina, as taxas masculinas eram seis e mais de sete vezes mais altas do que as das mulheres, respectivamente. Comparativamente, no Brasil as diferenças são muito maiores do que na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá e alguns outros países.
A influência do gênero sobre a vitimização por homicídios foi ressaltada por feministas, preocupadas com a extensa violência de homens contra mulheres. Um subproduto dessa ação foi o resgate da informação de que os homens são muito mais vítimas (e algozes também) da vitimização letal do que as mulheres.
Por que as mulheres matam menos do que os homens?
Em 1990, Gottfredson e Hirschi produziram uma “teoria geral do crime” que gira ao redor da falta de autocontrole. Os autores afirmam que as pessoas sem autocontrole são impulsivas, insensíveis, respondem fisicamente aos eventos, não pesam os riscos e as conseqüências, verbalizam pouco e mal e estão super-representadas entre os criminosos. Os autores acrescentam que essas características tendem a permanecer por toda a vida. É uma de várias teorias que tentam explicar porque sempre as taxas de criminalidade são mais altas entre homens do que entre mulheres. Os homens teriam menos auto-controle. É uma relação estabelecida internacionalmente, mas cujos valores variam muito entre paises. Obviamente, a teoria de Gottfredson e Hirschi explica parte das diferenças entre os gêneros nos mesmos paises, mas não explica as diferenças entre os paises de pessoas do mesmo gênero. Por sua vez, as teorias que enfatizam as diferenças econômicas e sociais entre paises não explicam as diferenças dentro de cada país, inclusive entre os gêneros. Por que os homens pobres matam e morrem mais do que as mulheres igualmente pobres, no mesmo país? Há muitas outras teorias que competem com a de Gottfredson e Hirschi.
Há mais: a despeito das diferenças entre as taxas (homens muito mais altas), elas covariam. Plotando a taxa masculina de cada ano pela feminina, de 1980 a 2005, em escalas diferentes, vemos que a relação é estreita:
Essa relação pode ser visualizada no comportamento das duas taxas no tempo: quando uma baixa, a outra baixa também, embora em nível diferente:

A aplicação ou não de uma teoria à explicação das diferenças entre homens e mulheres não é uma questão de princípio nem de ideologia, mas empírica. Poucos criminólogos sérios se colocam a disjuntiva radical entre se aplica/não se aplica, averiguando a extensão da aplicabilidade e o seu contexto.
A inclusão do gênero na equação explicativa dos homicídios contribuiu para aumentar substancialmente a variância explicada. Contribuiu, também, para estabelecer uma ponte saudável entre variáveis de tipo “macro”, estruturais, e variáveis de tipo “micro”, individuais, como gênero, idade, raça, estado civil, religião e variáveis interativas também. Afinal, o homicídio é uma interação entre pessoas, que se conheciam ou não.



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Terça-feira, Março 24, 2009

 

Alcoolismo, genética e câncer do esôfago

O câncer do esôfago é dos mais letais. Dependendo do país (e da qualidade da medicina dentro dele), em cinco anos somente de 12% a 31% dos pacientes estão vivos. Sabemos que o risco desse câncer aumenta com o consumo de bebidas quentes e o consumo excessivo de café e de comidas muito apimentadas. O que não sabíamos é que muitas pessoas que, quando bebem, ficam com o rosto avermelhado aumentam muito o risco de perder a vida com câncer do esôfago. Esse é o resultado de pesquisas feitas com pessoas do este da Ásia.
Por quê?
Parece ser uma suscetibilidade genética dos que têm um enzima deficiente, chamado (em Inglês) de aldehyde dehydrogenase 2 (ALDH2). Muitas pessoas daquela parte do mundo possuem essa deficiência, aproximadamente 540 milhões de pessoas, que representam 8% da população mundial. Essa deficiência faz com que haja uma reação forte ao consumo de álcool que se expressa na vermelhidão do rosto. São fenômenos tão relacionados que a vermelhidão (flushing) é um bom indicador da deficiência genética. O enzima é inativo nos que possuem a deficiência. No Japão, Akira Yokoyama e sua equipe demonstraram que as pessoas com uma cópia do gene inativo tem um risco de seis a dez vezes maior de ter câncer do esôfago. Se forem alcoólatras, as consequências são catastróficas: os que bebem 33 doses ou mais têm um risco 89 vezes maior do que os que não bebem. Essa combinação de uma deficiência genética com o alcoolismo é particularmente letal.


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Domingo, Março 15, 2009

 

O que há de errado com os jovens britânicos?

A Europa conduz regularmente um survey do comportamento de jovens de 15 e 16 anos. Entre os objetivos estão definir tendências no fumo, no consumo de álcool e de drogas. O último survey incluiu 35 países europeus. O relatório será distribuído gratuitamente.

Os dados foram coletados em 2007, como parte do European School Survey Project on Alcohol and other Drugs (ESPAD). Essa pesquisa foi realizada em 1995, 1999 e 2003.Os britânicos estão preocupados porque

•os adolescentes britânicos tem o nível mais alto de uso de drogas ilícitas de toda a Europa (dados de 1995 e de 1999). Esses niveis continuaram altos em 2003, a despeito de pequeno decréscimo;

•os adolescentes britânicos fumam muito (1995) e, no estudo de 1999, tinham o nível mais alto de fumantes com 13 anos ou menos;

•os adolescentes britânicos tinham os níveis mais altos de "binge drinking" e de alcoolismo na Europa (1995, 1999, 2003). "Binge drinking" - beber até ficar bêbado; tecnicamente beber cinco doses ou mais em seguida, tem efeitos devastadores sobre a saúde e o comportamento;

•as meninas adolescentes britânicas apresentam níveis altíssimos de "binge drinking", ainda mais altos do que o dos meninos (2003).

Fala-se em crise da juventude. Quando se fala em crise da juventude, não há como evitar falar de crise da família, da escola, de outras instituições e das políticas públicas.



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Quinta-feira, Março 12, 2009

 

Mais dois casos de assassinos múltiplos

Com horas de distância, dois casos de rampage killers, um caso especial de assassinos múltiplos. Um deles combina rampage com spree. O que caracteriza os rampage killings?

Autoria:
• quase sempre, os homicidas são homens - adolescentes, jovens adultos e adultos - raramente idosos e crianças, raramente mulheres;

Local:
• quase sempre as mortes (todas ou o grosso) são num mesmo lugar (escola, fábrica etc.);
• com frequência, o autor esteve funcionalmente (ou disfuncionalmente) associado com o lugar;
• porém, no caso de spree killings o local vai mudando;

Instrumentos:
• quase sempre com armas de fogo;
• quase sempre com armas de repetição (particularmente nos rampage killings);
• com frequência por pessoas parte da cultura de armas (particularmente nos rampage killings);

Fuga, suicídio do autor
• os autores, diferentemente dos serial killers, não se preocupam com escapar (particularmente nos rampage killings);
• no caso de autores adultos, a série termina com o suicídio ou o suicidio através da polícia (desafiando a polícia quando essa atitude eleva muitíssimo o risco de morte);

Vítimas

• as vítimas raramente são predominantemente mulheres ou crianças.

Essas características tem ajudado a conhecer melhor esse fenômeno, assim como a produzir legislação que ajude a evitá-los.

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Domingo, Março 01, 2009

 

Cresce a importância dos avôs e das avós

Crianças e adolescentes que crescem sem os dois pais biológicos têm algumas desvantagens em relação às demais – na média. Uma pesquisa recente com mais de mil e quinhentas crianças e adolescentes (11 a 16 anos) que estudavam em escolas da Inglaterra e do País de Gales revelou que a função dos avós cresce entre crianças que vivem com apenas um dos pais biológicos ou com uma família reconstituída, com o pai ou a mãe biológica e um padrasto ou uma madrasta. A pesquisa foi dirigida por Shalhevet Attar-Schwartz, da The Hebrew University em Jerusalém.



Muitos estudos demonstraram que crianças e adolescentes têm mais contacto com a família da mãe do que com a do pai. Esses dados refletem em parte o fato de que a maioria delas vive com a mãe depois da separação ou divórcio. Os contactos são mais freqüentes e profundos com a avó do que com o avô.
Na pesquisa de Attar-Schwartz, dois terços viviam com os dois pais biológicos, mas 18% viviam com apenas um deles e outros 16% viviam com um deles e um padrasto ou madrasta. O efeito benéfico do contacto com os avôs e avós é maior nos dois últimos grupos.
Os jovens que mais conversavam com avôs e avós sobre seus problemas – tanto pessoais, quanto os relativos à escola – que recebiam conselhos e até os que sentiam que podiam pedir uma graninha, tinham menos problemas na escola, perturbavam menos os demais e eram menos hiperativos. Num modelo que soma zero, o apoio dos avôs e avós cresce de importância na medida em que o de um ou dos dois pais biológicos decresce.
Mas não é só por isso. Avanço a hipótese de que as próprias crianças e adolescentes buscam mais os avós quando falta esse relacionamento na família incompleta ou na reconstituída. Essa hipótese não parte do suposto de que o quantum dessas necessidades psicológicas seja fixo, inelástico, mas que existe em todos em maior ou menor medida.
Avôs e avós não devem ficar de fora nem da teoria nem da prática da educação ou da prevenção da criminalidade juvenil: em 2004, nos Estados Unidos, havia cinco milhões de residências na qual morava um avô ou uma avó e pelo menos um neto ou neta de menos de 18 anos. É um crescimento de 30% em relação a 1990. Vamos além: aproximadamente a metade (dois milhões e quatrocentos mil) desses avôs e avós era a pessoa responsável pela criança ou adolescente.
As mudanças na estrutura familiar trouxeram de volta à relevância para a educação de crianças e adolescentes os avôs e avós. Em algumas áreas, a opção para o tempo livre da criança de mãe solteira ou descasada pode ser entre ficar sob a supervisão do “vô” ou da “vó” ou ficar solto, na rua, à disposição do tráfico e de outras organizações criminosas. É um campo pouco pesquisado no Brasil.
Redação de Gláucio Ary Dillon Soares a partir de release da American Psychological Association.

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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

 

As Políticas Estaduais e as Tendências do Crime

         Uma comparação entre diferentes tipos de trajetórias municipais elucida o pensamento e contribui para a construção de teorias.

Em dois municípios, Maceió e Salvador, o número absoluto de homicídios explodiu de 2002 a 2006: 511 em 2002; 520; 559; 620 em 2005 e 899 em 2006. Os homicídios em Salvador dobraram durante esses anos: 585, 730, 739, 1.062 e 1.176, respectivamente. Não obstante, Maceió é uma cidade muito mais violenta, com uma taxa de 81 homicídios por cem mil habitantes, em comparação com 36 em Salvador. Porto Seguro, também na Bahia, quadruplicou os homicídios durante o período: 32; 37; 53; 92 e 124. Com 86 homicídios por 100 mil habitantes, já é o 16º município mais violento do Brasil. Esses são municípios nos quais os crimes violentos crescem rapidamente. Há vários outros municípios nesses estados apresentando rápido crescimento da violência.

No Estado de Alagoas a taxa de vitimização masculina cresceu muito: de 38 por 100 mil homens em 1999, para 48 em 2000, 56 em 2001, 65 em 2002 e 77 em 2005. Dobrou em seis anos. Em 2007, pela primeira vez, o número absoluto dos homicídios superou a marca de dois mil. Na Bahia, se estabeleceu uma tendência ao crescimento a partir de 1999. As taxas masculinas saltaram de menos de 13 por 100 mil a mais de 39 em 2005; a taxa de 2006 é o triplo da de seis anos antes.

         Porém, a tendência ao crescimento não é geral no Brasil: há um número grande de municípios nos que as taxas se estabilizaram num patamar alto, oscilando pouco durante esse período. Vários municípios fluminenses e pernambucanos estão nessa situação, mas há municípios em outros estados, como o Espírito Santo, com padrão semelhante. Duque de Caxias, no Estado do Rio, teve 655 homicídios em 2002; 703 em 2003; baixou para 605 em 2004, subiu para 710 em 2005 e baixou um pouco, para 686, em 2006. Era o 21º município mais violento do país, de acordo com o Mapa da Violência dos Municípios Brasileiros, 2008, com uma taxa de 81 homicídios por cem mil habitantes. Em Macaé, os homicídios variaram entre 113 e 163, subindo e descendo, mas a taxa média trienal é muito alta: 86 por 100 mil hbs. Recife, o nono município mais violento do Brasil neste período, com a altíssima taxa de 91 por 100 mil, oscilou entre 1.312 e 1.375.  Em Jaboatão dos Guararapes, também em Pernambuco, o número de homicídios subiu e desceu entre 442 e 535. Nesses estados, há vários municípios cujas taxas oscilaram num nível alto.

         Há mais dois tipos tendências dos homicídios municipais: os que conseguiram reduzir sua taxa de homicídios durante o período e os que vinham na desastrosa rota do crescimento, que foi alterada, iniciando um declínio.

Diadema, em São Paulo, é conhecida devido à dramática redução no número de homicídios de 2002 a 2006: 325; 297; 213; 177 e 121, respectivamente. A taxa do município declinou auspiciosamente no período 79,1; 71,3; 50,0; 42,9 e 26,3. Porém, em verdade, a redução começou antes. Já esteve entre os três mais violentos do país; hoje está em 190º lugar.

         Diadema não é uma experiência única no Estado de São Paulo. Há muitas outras. Barueri, por exemplo, cortou 2/3 dos seus homicídios no mesmo período: 43; 44; 26; 25 e 14. Com uma taxa trienal de 26, Barueri caminha a passos largos para ser uma cidade pacífica. A queda no número de homicídios é acelerada e generalizada em São Paulo. No estado como um todo os homicídios no primeiro semestre baixaram de 2.218 em 2005, a 1.623 em 2006 e a 1.320. Em 2007 morreram 898 pessoas a menos do que dois anos antes. Esses são os ganhos do primeiro semestre. O fenômeno é geral: houve redução em todos os lugares do Estado - na capital, na área metropolitana (excluindo a capital) e no interior do Estado. Somente na capital morreram 376 pessoas a menos; na área metropolitana foram salvas 219 vidas e no interior do Estado mais de trezentas pessoas deixaram de morrer. Houve redução de 2005 para 2006, e de 2006 para 2007.

         Em municípios mineiros podemos observar outro padrão: crescimento até 2003, seguido por redução. Em Contagem, por exemplo, os homicídios cresceram de 288, em 2002, a 329, em 2003; a 374, em 2004, quando se iniciou a queda 359, em 2005 e 300 em 2006. Porém, o melhor exemplo é o de Belo Horizonte: os homicídios cresceram de 979 em 2002 a 1.506 em 2004, declinando nos dois anos posteriores - 1.293 e 1.168. A taxa trienal de hoje em Belo Horizonte, 57 por 100 mil, seria impensável há vinte anos. Outros municípios mineiros também apresentam essa trajetória curvilinear.

         Esses dados geraram perguntas, que produziram respostas, que levaram a uma generalização importante:

1.     Por que vários municípios alagoanos e baianos tiveram um aumento acentuado na violência letal nos anos observados?

2.     Por que vários municípios pernambucanos e do Estado do Rio de Janeiro tiveram taxas relativamente altas, que oscilaram pouco?

3.     Por que tantos municípios paulistas tiveram reduções substanciais nas taxas de homicídio?

4.  Porque tantos municípios mineiros tiveram um forte incremento na violência de 1995 a 2003? Porque, a partir de 2003, vários tiveram uma redução acentuada, particularmente na região metropolitana de Belo Horizonte?

         A semelhança entre as tendências de diferentes municípios do mesmo estado sublinha a importância dos estados. As taxas de homicídio covariam mais entre os municípios do mesmo estado do que entre municípios de estados diferentes. Mas, o que acontece nos estados que impacta as taxas de homicídio? Os dados socioeconômicos variam entre os estados, mas também variam muito dentro dos estados. Capitais e regiões metropolitanas diferem muito no que concerne a economia e a sócio-demografia, sendo difícil explicar algumas tendências semelhantes exclusivamente a partir desses fatores divergentes.

Os dados captam o efeito de uma difícil interação entre variáveis econômicas e sociais e políticas públicas. No Brasil, a segurança pública é jurisdição de cada estado, e as políticas públicas mais relevantes no combate ao crime e à violência são estaduais. Em outros países, como a Colômbia, a segurança pública é predominantemente de jurisdição municipal. No Brasil, a predominância estadual não significa que os demais níveis da administração pública não contribuam. Diadema é um exemplo de como os municípios podem contribuir e o PRONASCI e a SENASP são exemplos de participação federal construtiva, assim como os PACs, que são parcerias. Mas o segredo está nos estados.

Bons governos estaduais salvam vidas.

Publicado no Jornal do Brasil de 27/02/2009



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Sábado, Fevereiro 14, 2009

 

Depressão situacional

Algumas pessoas respondem a fatores situacionais ficando deprimidas. Os fatores podem ser muito diferentes, como medo do retorno de um câncer, um divórcio, ter sido despedido e até o que acontece no mundo. Em uma conversa, Dr. Swartz estabelece semelhanças entre a depressão e a asma. Afirma que muitas coisas causam a asma e, não obstante, ela é tratada da mesma maneira. A depressão seria igual. Me atrevo a adicionar que, não obstante, a prevenção varia de acordo com o estopim, com o que provoca a situação. A depressão severa traz consigo uma síndrome, sintomas diferentes que tendem a estar juntos - baixo astral (que inclui tristeza e apatia), alterações no sono (para pior), falta de interesse no que antes motivava, sentimento de culpa, falta de energia, falta de concentração e até ideações suicidas. Há outro sintomas que podem estar presentes.

Muitos ficam perambulando pela vida sem tratamento; quando há diagnóstico, uma distinção importante é entre depressão situacional (respondendo mal a uma situação) ou interna, com freqüência biológica).

O tratamento varia de acordo com  a severidade da depressão. Em depressões leves ou moderadas, com freqüência um de vários tipos de psicoterapia é usado. Se for mais grave, ou se o paciente não melhorar, terapeutas responsáveis recomendam medicamento.

Passada a crise (e seus perigos), o foco passa a ser identificar e reduzir as condições precipitadoras ou, pelo menos, a reação do paciente a elas. O principal objetivo é evitar recaídas. Infelizmente, a taxa de recaídas é alta.

Nessa leitura se afirma que a duração média dos episódios depressivos se tratados seriamente é de três meses; sem tratamento é seis meses ou mais. Quanto mais cedo o tratamento, mais cedo o fim da depressão.

Doenças como câncer, ataques cardíacos, derrames, assim como a vitimização por crime e/ou violência, seja primária ou secundária (vítimas ocultas) freqüentemente provocam depressões que não podem ser ignoradas. A vida da pessoa deprimida se transforma, para pior. Assim, além da doença física ou da perda de alguém, ou do sentimento de insegurança, é preciso levar em consideração a qualidade da vida das pessoas, dos atores desses dramas humanos.




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Domingo, Dezembro 28, 2008

 

Religião e violência


Com a aproximação do Natal, os temas da religião e da vida espiritual voltam à baila, juntamente com perguntas centenárias. Num país, como o Brasil, no qual a violência é muito grande e os jovens representam uma alta proporção tanto das vítimas quanto dos agressores, uma velha pergunta se impõe: a religião tem alguma coisa a ver com a violência da juventude? Aumenta ou diminui a qualidade da vida dos jovens?
Há muitos estudos que tentam dar uma resposta a essas perguntas mas, infelizmente, poucos foram realizados no Brasil. Os Estados Unidos são um país que estimula pesquisas de todo tipo, inclusive sobre a interseção da religião com a juventude. Para sintetizar o que se sabe, Dew e outros pesquisadores da Universidade de Duke fizeram uma revisão de 115 artigos científicos que analisaram uma série de relações entre a juventude e o uso de drogas, a delinqüência, problemas psiquiátricos como a depressão e a ansiedade, a propensão ao suicídio, etc. Em 92% deles havia, pelo menos, uma relação estatisticamente significativa entre a religião e uma das dimensões da saúde mental. A religião e a religiosidade diminuem os problemas mentais e comportamentais. O impacto mais forte é sobre o consumo de drogas.
Outro trabalho semelhante, de revisão sistemática da literatura científica, foi feita por Larson e Johnson em 2003. Analisaram nada menos do que 402 artigos que pesquisaram a relação entre religião e delinqüência. Foram rigorosos, selecionando, apenas, os artigos metodologicamente sólidos. Sobraram quarenta. Diferenciaram aspectos da religião: a freqüência aos ritos (missas etc.); a importância atribuída pelos entrevistados à religião; o estudo das escrituras; a freqüência das orações; a religião dos entrevistados e a participação em atividades religiosas dentro e fora da igreja ou templo. Quase todas as pesquisas mostravam que a religião agia contra a delinqüência: a maior religiosidade, menor o risco de que o jovem cometesse atos delinqüentes.
Lisa Wallace e colaboradores fizeram uma análise mais sociológica dessas relações. Estudaram alunos da 6ª, 8ª, 10ª e 12ª séries. Se concentraram em dez tipos de comportamentos delinqüentes, sendo o pior levar armas de fogo para a escola. Seis variáveis independentes protegiam os alunos contra a delinqüência: compromisso e identificação com a escola ou colégio; o compromisso com a própria educação e a aceitação da legitimidade das normas da escola. A família também pesava: a participação dos pais na vida escolar dos alunos e a relação emocional dos alunos com suas famílias contavam e muito. Além desses fatores, estava a religião que também protegia o aluno. Entre as crianças menores, a família era o fator protetor mais importante e a religião também era um fator de peso. Ironicamente, entre os adolescentes menores (que estavam na 8ª e na 10ª séries), que buscavam independência em relação a suas famílias, a religião também perdia parte de sua capacidade protetora, mas a retomava mais tarde, entre os adolescentes maiores e os jovens adultos. Nesse grupo mais velho, o efeito da religião era semelhante ao da família e o da identificação com a escola - juntos.
E no Brasil? Sabemos pouco. Vários estudos observacionais, não sistemáticos, descrevem a religião como uma força que compete, mas não colide, com o tráfico nas áreas mais pobres e violentas. Nelas, o trânsito entre denominações pentecostais e entre elas e o tráfico é relativamente intenso. Infelizmente, esses estudos não são sistemáticos. Um dado sólido, que representa o início de uma linha de pesquisa e não o seu auge, é a correlação negativa (-0,53) entre a percentagem da população que afirma ter uma (qualquer) religião e a taxa média de homicídios entre 1996 e 2002, usando os municípios brasileiros como observações. Um detalhamento dessa pesquisa mostra que, em 24 estados, a mais pessoas religiosas, menor a taxa de homicídios.
Historicamente, há muitos casos tristes de guerras e violência estimuladas ou cometidas por religiões. Ainda hoje, há interpretações equivocadas de textos religiosos que tem levado à invasão militar de uns países por outros e a atos de terrorismo. Não obstante, no nível individual, os dados e a bibliografia de que dispomos mostram que a religião reduz o crime e a violência, mas com intensidade variável.
No Brasil, o maior país católico do mundo, com uma taxa alta de crescimento de evangélicos, um número significativo de espíritas, sobretudo na classe média, e religiões afro-brasileiras muito importantes em alguns estados, as pesquisas empíricas sobre as relações entre religião, por um lado, e crime e violência, pelo outro, são escassas. No mínimo, uma contradição.

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Terça-feira, Dezembro 16, 2008

 

Conceber ou não: eis a questão


 

GLAUCIO ARY DILLON SOARES

Sociólogo, é pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj)

Os abortos são, no mínimo, um tema conflitivo. Entre adolescentes, são muito mais comuns do que forças organizadas da sociedade desejam, inclusive os movimentos feministas, que defendem o direito da mulher de abortar, mas não preconizam o aborto.

Abortos, além de matar o feto, trazem riscos para a mãe. Como reduzi-los? Como impedir as gravidezes não desejadas?

Surgiu uma proposta na Inglaterra de que as classes de educação e conscientização sexual dadas por outras adolescentes, em vez de professores e professoras, poderiam ser mais eficientes. Um dos argumentos era que adolescentes falariam melhor e mais livremente desses assuntos entre si do que com pessoas mais velhas e psicologicamente mais distantes.

Como deve acontecer, programas educacionais e sociais são testados e avaliados primeiro e somente implementados em larga escala depois. Porém, a revista de livre acesso PLoS Medicine acaba de publicar relatório segundo o qual um programa experimental baseado em aulas e conversas dirigidas por adolescentes mais experientes não reduziu a taxa de abortos entre adolescentes inglesas. Não obstante, as (os) adolescentes o preferem, o que levou as autoridades sanitárias a repensar o programa e não a excluí-lo.

O aborto por adolescentes é um problema de saúde pública no mundo, inclusive na Europa Ocidental, e é particularmente sério no Reino Unido. O mencionado estudo, conhecido como Ripple, foi levado a cabo por pesquisadores do University College London e dirigido por Judith Stephenson. Participaram 27 escolas e 9 mil alunas de 13 a 14 anos, que foram aleatoriamente distribuídas em dois grupos, o que recebeu educação sexual e informação tradicional, por meio dos professores, e o que recebeu a mesma informação por intermédio de outras adolescentes. O programa foi avaliado de duas maneiras: informações prestadas pelas próprias adolescentes, o que é menos confiável, e informações retiradas dos registros médicos e hospitalares. A primeira avaliação, feita quando as adolescentes tinham 16 anos, indicou um pequeno benefício do sistema baseado em colegas e a segunda não revelou qualquer benefício. Uma segunda avaliação, feita quando elas tinham 20 anos, não revelou qualquer benefício, inclusive quanto a doenças sexualmente transmissíveis. A ausência de benefícios foi notada no caso de alunos e de alunas.

Estudos realizados em diversas partes do mundo mostram que os problemas relacionados com a gravidez não desejada não terminam com o aborto; muitos começam com ele. Na Nova Zelândia, Fergusson, Horwood e Ridder estudaram a conexão entre ter feito um aborto e distúrbios mentais. Os resultados mostram que 41% das mulheres engravidaram pelo menos uma vez antes dos 25 e que 15% abortaram. As que abortaram desenvolveram altas taxas de depressão, ansiedade, ideações e tentativas de suicídio, assim como uso de drogas, mesmo depois de controladas outras variáveis relevantes.

Uma das pesquisas mais completas foi feita na Finlândia, por Gissler, Hemminki e Lönnqvist. A taxa média anual de suicídios na população feminina era de 11,3 por 100 mil habitantes. A taxa associada com o nascimento das crianças era mais baixa do que a média nacional, 5,9; a perda não desejada da criança durante a gravidez gerava uma taxa de suicídios muito mais alta, 18,1; e a taxa associada com o aborto induzido era muitíssimo mais alta, de 34,7 por 100 mil. As mulheres que, intencionalmente ou não, perdem filho antes do nascimento necessitam atenção especial.

Como esperado a partir da sociologia da família, os suicídios relacionados com os nascimentos eram mais altos entre adolescentes, mas o aborto provocado aumentava o risco de suicídio em todos os grupos de idade. As classes sociais também influenciavam, pois as mulheres mais pobres tinham maior probabilidade de suicídio e de serem solteiras. A ênfase nos abortos provocados talvez tenha concorrido para subestimar a significação do término não intencional da gravidez. Brier fez uma extensa revisão da literatura, que acaba de ser publicada, em que sublinha a depressão e a violência psicológica sentida por mulheres grávidas que perderam — não intencionalmente — seus bebês. Os sintomas são semelhantes aos provocados por outras grandes perdas, como o falecimento de um familiar, marcando a mulher, particularmente durante seis meses após a perda.

As violências associadas com a gravidez são um problema complexo e penoso que multiplicam os danos provocados pelo achismo. Não podemos formular políticas públicas na base de opiniões ou de ideologia. Os custos são muito altos. Interagem fatores tradicionalmente pesquisados pela saúde pública com outros também estudados pelos pesquisadores da violência e defensores da segurança cidadã. Políticas públicas orientadas para evitar gravidezes não desejadas são muito mais inteligentes do que as orientadas para terminá-las.


 

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Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

 

TV e infelicidade


 

Nova pesquisa feita pela Universidade de Maryland conclui que as pessoas que se consideram infelizes assistem mais à televisão, passam mais tempo em frente ao aparelho, ao passo que as pessoas que se consideram felizes passam mais tempo lendo e interagindo com outras pessoas.

Chegaram a essa conclusão após a análise de pesquisas sobre o uso do tempo e surveys das atitudes da população. Uma hipótese usada no estudo é a de que ver TV aumenta a sensação de felicidade no curto prazo, mas aumenta no médio e longo prazo. O sociólogo John P. Robinson afirma que ver TV é um hábito menos satisfatório do que participar das coisas e, até, ler jornais. Robinson acredita que a recessão aumentará o tempo passado em frente à TV. As pessoas com mais lazer e mais tempo disponível vêem mais TV.

A amostra foi de mais de 30 mil adultos e as perguntas se concentraram no uso do tempo. Cada entrevistado manteve um diário simplificado. O famoso General Social Survey foi usado para avaliar as mudanças nas atitudes, inclusive no sentimento de felicidade. Os dados do General Social Survey são claros, indicando que pessoas mais participativas são mais felizes – as que são socialmente mais ativas, vão mais à igreja, votam, lêem mais etc. Porem, os que viam mais TV eram menos felizes. Os infelizes passavam 20% do seu tempo a mais vendo TV. Isso controlando variáveis que afetam tanto o sentimento de felicidade quanto os hábitos televisivos. A facilidade com que se vê TV é um dos seus atrativos. Ela está na sua casa, não é preciso sair. Nos Estados Unidos, mais da metade do tempo livre é gasto vendo TV.

As pessoas mais ativas também são as que reclamam da falta de tempo... e as que se consideram mais felizes; os mais infelizes, ao contrário, acham que tem demasiado tempo livre (51%) em contraste com os mais felizes (19%).

No Brasil, pesquisa semelhante deveria levar em consideração os hábitos da população. Eu certamente agregaria o sentimento de insegurança, que aparafusa muitos à casa; as atividades negativas, que competem com a TV ou a reforçam (consumir álcool ou drogas, fumar); o consumo de gorduras, levando à obesidade; a falta de alternativas fáceis de lazer em áreas mais pobres e o papel da depressão – causa e efeito do tempo passado em casa vendo TV, entre outros.

Dada a popularidade da TV e a relevância da depressão e do sentimento de infelicidade, é pesquisa que devemos fazer regularmente.

Fonte: Social Indicators Research

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Sexta-feira, Novembro 28, 2008

 

Eunice Durham: fábricas de maus professores


 

Hoje há poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom nível sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antropóloga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o mérito de tratar do assunto com rara objetividade. Seu trabalho representa um avanço, também, porque mostra, com clareza, como as universidades têm relação direta com a má qualidade do ensino oferecido nas escolas do país. Ela diz: "Os cursos de pedagogia são incapazes de formar bons professores". Ex-secretária de política educacional do Ministério da Educação (MEC) no governo Fernando Henrique, Eunice é do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas, da Universidade de São Paulo – onde ingressou como professora há cinqüenta anos.

Sua pesquisa mostra que as faculdades de pedagogia estão na raiz do mau ensino nas escolas brasileiras. Como?
As faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e ensinar a matéria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limitações elementares: não conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos científicos de média complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se livrado delas. Minha pesquisa aponta as causas. A primeira, sem dúvida, é a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a prática. Segundo essa corrente acadêmica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula é inferior a reflexões supostamente mais nobres.

Essa filosofia é assumida abertamente pelas faculdades de pedagogia?
O objetivo declarado dos cursos é ensinar os candidatos a professor a aplicar conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos à educação. Pretensão alheia às necessidades reais das escolas – e absurda diante de estudantes universitários tão pouco escolarizados.

O que, exatamente, se ensina aos futuros professores?
Fiz uma análise detalhada das diretrizes oficiais para os cursos de pedagogia. Ali é possível constatar, com números, o que já se observa na prática. Entre catorze artigos, catorze parágrafos e 38 incisos, apenas dois itens se referem ao trabalho do professor em sala de aula. Esse parece um assunto secundário, menos relevante do que a ideologia atrasada que domina as faculdades de pedagogia.

Como essa ideologia se manifesta?
Por exemplo, na bibliografia adotada nesses cursos, circunscrita a autores da esquerda pedagógica. Eles confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educação. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dialética, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia.

Quais os efeitos disso na escola?
Quando chegam às escolas para ensinar, muitos dos novatos apenas repetem esses bordões. Eles não sabem nem como começar a executar suas tarefas mais básicas. A situação se agrava com o fato de os professores, de modo geral, não admitirem o óbvio: o ensino no Brasil é ainda tão ruim, em parte, porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função.

Por que os professores são tão pouco autocríticos?
Eles são corporativistas ao extremo. Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. É um cenário preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino – e, conseqüentemente, da responsabilidade. Nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba.

Como os sindicatos prejudicam a sala de aula?
Está suficientemente claro que a ação fundamental desses movimentos é garantir direitos corporativos, e não o bom ensino. Entenda-se por isso: lutar por greves, aumentos de salário e faltas ao trabalho sem nenhuma espécie de punição. O absenteísmo dos professores é, afinal, uma das pragas da escola pública brasileira. O índice de ausências é escandaloso. Um professor falta, em média, um mês de trabalho por ano e, o pior, não perde um centavo por isso. Cenário de atraso num país em que é urgente fazer a educação avançar. Combater o corporativismo dos professores e aprimorar os cursos de pedagogia, portanto, são duas medidas essenciais à melhora dos indicadores de ensino.

A senhora estende suas críticas ao restante da universidade pública?
Há dois fenômenos distintos nas instituições públicas. O primeiro é o dos cursos de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, que, embora ainda atrás daqueles oferecidos em países desenvolvidos, estão sendo capazes de fazer o que é esperado deles: absorver novos conhecimentos, conseguir aplicá-los e contribuir para sua evolução. Nessas áreas, começa a surgir uma relação mais estreita entre as universidades e o mercado de trabalho. Algo que, segundo já foi suficientemente mensurado, é necessário ao avanço de qualquer país. A outra realidade da universidade pública a que me refiro é a das ciências humanas. Área que hoje, no Brasil, está prejudicada pela ideologia e pelo excesso de críticas vazias. Nada disso contribui para elevar o nível da pesquisa acadêmica.

Um estudo da OCDE (organização que reúne os países mais industrializados) mostra que o custo de um universitário no Brasil está entre os mais altos do mundo – e o país responde por apenas 2% das citações nas melhores revistas científicas. Como a senhora explica essa ineficiência?
Sem dúvida, poderíamos fazer o mesmo, ou mais, sem consumir tanto dinheiro do governo. O problema é que as universidades públicas brasileiras são pessimamente administradas. Sua versão de democracia, profundamente assembleísta, só ajuda a aumentar a burocracia e os gastos públicos. Essa é uma situação que piorou, sobretudo, no período de abertura política, na década de 80, quando, na universidade, democratização se tornou sinônimo de formação de conselhos e multiplicação de instâncias. Na prática, tantas são as alçadas e as exigências burocráticas que, parece inverossímil, um pesquisador com uma boa quantia de dinheiro na mão passa mais tempo envolvido com prestação de contas do que com sua investigação científica. Para agravar a situação, os maus profissionais não podem ser demitidos. Defino a universidade pública como a antítese de uma empresa bem montada.

Muita gente defende a expansão das universidades públicas. E a senhora?
Sou contra. Nos países onde o ensino superior funciona, apenas um grupo reduzido de instituições concentra a maior parte da pesquisa acadêmica, e as demais miram, basicamente, os cursos de graduação. O Brasil, ao contrário, sempre volta à idéia de expandir esse modelo de universidade. É um erro. Estou convicta de que já temos faculdades públicas em número suficiente para atender aqueles alunos que podem de fato vir a se tornar Ph.Ds. ou profissionais altamente qualificados. Estes são, naturalmente, uma minoria. Isso não tem nada a ver com o fato de o Brasil ser uma nação em desenvolvimento. É exatamente assim nos outros países.

As faculdades particulares são uma boa opção para os outros estudantes?
Freqüentemente, não. Aqui vale a pena chamar a atenção para um ponto: os cursos técnicos de ensino superior, ainda desconhecidos da maioria dos brasileiros, formam gente mais capacitada para o mercado de trabalho do que uma faculdade particular de ensino ruim. Esses cursos são mais curtos e menos pretensiosos, mas conseguem algo que muita universidade não faz: preparar para o mercado de trabalho. É estranho como, no meio acadêmico, uma formação voltada para as necessidades das empresas ainda soa como pecado. As universidades dizem, sem nenhum constrangimento, preferir "formar cidadãos". Cabe perguntar: o que o cidadão vai fazer da vida se ele não puder se inserir no mercado de trabalho?

Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos alunos freqüentam essas escolas técnicas. No Brasil, são apenas 9%. Por quê?
Sempre houve preconceito no Brasil em relação a qualquer coisa que lembrasse o trabalho manual, caso desses cursos. Vejo, no entanto, uma melhora no conceito que se tem das escolas técnicas, o que se manifesta no aumento da procura. O fato concreto é que elas têm conseguido se adaptar às demandas reais da economia. Daí 95% das pessoas, em média, saírem formadas com emprego garantido. O mercado, afinal, não precisa apenas de pessoas pós-graduadas em letras que sejam peritas em crítica literária ou de estatísticos aptos a desenvolver grandes sistemas. É simples, mas só o Brasil, vítima de certa arrogância, parece ainda não ter entendido a lição.

Faculdades particulares de baixa qualidade são, então, pura perda de tempo?
Essas faculdades têm o foco nos estudantes menos escolarizados – daí serem tão ineficientes. O objetivo número 1 é manter o aluno pagante. Que ninguém espere entrar numa faculdade de mau ensino e concorrer a um bom emprego, porque o mercado brasileiro já sabe discernir as coisas. É notório que tais instituições formam os piores estudantes para se prestar às ocupações mais medíocres. Mas cabe observar que, mesmo mal formados, esses jovens levam vantagem sobre os outros que jamais pisaram numa universidade, ainda que tenham aprendido muito pouco em sala de aula. A lógica é típica de países em desenvolvimento, como o Brasil.

Por que num país em desenvolvimento o diploma universitário, mesmo sendo de um curso ruim, tem tanto valor?
No Brasil, ao contrário do que ocorre em nações mais ricas, o diploma de ensino superior possui um valor independente da qualidade. Quem tem vale mais no mercado. É a realidade de um país onde a maioria dos jovens está ainda fora da universidade e o diploma ganha peso pela raridade. Numa seleção de emprego, entre dois candidatos parecidos, uma empresa vai dar preferência, naturalmente, ao que conseguiu chegar ao ensino superior. Mas é preciso que se repita: eles servirão a uma classe de empregos bem medíocres – jamais estarão na disputa pelas melhores vagas ofertadas no mercado de trabalho.

A tendência é que o mercado se encarregue de eliminar as faculdades ruins?
A experiência mostra que, conforme a população se torna mais escolarizada e o mercado de trabalho mais exigente, as faculdades ruins passam a ser menos procuradas e uma parte delas acaba desaparecendo do mapa. Isso já foi comprovado num levantamento feito com base no antigo Provão. Ao jogar luz nas instituições que haviam acumulado notas vermelhas, o exame contribuiu decisivamente para o seu fracasso. O fato de o MEC intervir num curso que, testado mais de uma vez, não apresente sinais de melhora também é uma medida sensata. O mau ensino, afinal, é um grande desserviço.

A senhora fecharia as faculdades de pedagogia se pudesse?
Acho que elas precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. Não é preciso ir tão longe para entender por quê. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama atenção por uma razão para lá de negativa. Está sempre entre os piores países do mundo em educação.

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Quinta-feira, Novembro 27, 2008

 

Vendendo a alma


 

Gláucio Ary Dillon Soares.

(Sociólogo, é pesquisador do instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ e CPDOC, Fundação Getúlio Vargas)


 

Charles Nemeroff é um psiquiatra. Não é um psiquiatra qualquer. Tem um amplo currículo, títulos e publicações que qualquer pesquisador gostaria de ter. Médico, é também PhD. Um nome conhecido em neurobiologia. Desde 1991 ensina e pesquisa na prestigiosa Emory University School of Medicine, em Atlanta, Georgia. Atlanta é um centro internacional de pesquisas médicas, onde funciona o CDC, que reúne todas as informações sobre novas doenças e epidemias. Nemeroff, que fará 60 anos em 2009, era o chefe do Departamento de Psiquiatria. É geninho: aos 30 anos recebeu um importante prêmio da Society of Biological Psychiatry. Foi presidente do American College of Neuropsychopharmacology and the American College of Psychiatrists. Publicou mais de 750 trabalhos. Um homem acima de qualquer suspeita.

Infelizmente, Charles Nemeroff não estava acima de qualquer tentação. Como outras pessoas em posições de poder, parece que se achava acima da ética. A ética e a lei seguem as linhas de classe e do poder político. O que vale para um, não vale para o outro. No Brasil temos muitos exemplos: mensalão e mensalinho para os poderosos, prisão para os demais — pelas mesmas ações.

Nemeroff renunciou à chefia do Departamento de Psiquiatria em Emory. É a mesma estratégia usada pelo Severino Cavalcanti na Presidência da Câmara, que renunciou ao mandato para não perder os direitos políticos. Nemeroff está sendo acusado de conflito de interesses e de fraude, de não informar a universidade que recebera centenas de milhares de dólares da indústria farmacêutica ao mesmo tempo em que recebia milhões de dólares do governo federal para pesquisas relevantes para ela.

Nos Estados Unidos, professores universitários não estão acima de qualquer acusação, nem da prisão. O caso foi investigado pelo senador Charles Grassley (R-IA), segundo o qual Nemeroff recebeu da Glaxo Smith Kline (GSK) a bagatela de US$ 119 mil somente em 2003,

por conta de honorários por palestras e gastos vários. E o conflito de interesses? Nemeroff tinha sido o pesquisador responsável por uma pesquisa para avaliar cinco antidepressivos daquela companhia.

Não obstante, muitos alegam, não sem razão, que as empresas financiam novas pesquisas, ciclos de suas palestras etc. daqueles que têm posições favoráveis aos seus produtos. A pergunta é o que causa o quê? O que veio antes?

As universidades, para garantir que a pesquisa é científica e independente, e para se proteger de críticas, acusações e processos, exige que seus pesquisadores declarem o que recebem de patrocinadores privados. Há, claro, um limite mínimo e ninguém declara "doações" de R$ 10. Em Emory são US$ 10 mil, limite mais baixo do que parece, pois inclui o valor de passagens aéreas, hospedagem etc.

A falta de ética e o conflito de interesses se estendem às publicações. Juntamente com um colega, Nemeroff publicou um trabalho em que recomendava três produtos usados para tratar desordens psiquiátricas, sem informar à revista (e aos leitores) que eles tinham interesses financeiros nesses produtos. Não havia imparcialidade.

Os problemas éticos na prática clínica podem ser piores, com graves conseqüências para os pacientes. Infelizmente, a cobiça afeta os médicos também. Um exemplo recente: na cidade de Los Gatos, nos Estados Unidos, Ali Moayed falsificava resultados de testes para convencer pacientes de que tinham câncer de próstata (nem todos tinham). Eles seguiam um tratamento caro na clínica e Moayed lucrava com isso. Descoberto, perdeu a licença para continuar clinicando. Foi condenado a três meses de prisão e a outros nove de prisão domiciliar porque ele negociou com as autoridades, aceitando a culpa dos crimes de abuso de idosos e de fraude do seguro. Moayed reduziu sua pena e o estado economizou tempo, recursos e dinheiro no que seria uma longa batalha judicial, com especialistas e pareceres técnicos dos dois lados. É um procedimento comum adotado pelas autoridades americanas, chamado de plea-bargaining. Paralelamente, entrou em acordo com os pacientes, pagando US$ 100 mil a cada um deles.

No Brasil, infelizmente, o médico poderia contratar bons advogados e o processo levaria muitos anos. Como o câncer de próstata afeta, sobretudo, idosos, a inépcia do sistema judicial teria conseqüências dramáticas: muitos dos pacientes/vítimas faleceriam antes dos julgamentos.

Há quem rejeite a necessidade de ensinar ética profissional em medicina, mas em todas as profissões os interesses do profissional podem se chocar com os de seus pacientes ou clientes. Sem internalizar normas de conduta, é difícil lidar bem com essas situações.

É preciso cuidado para não vender a própria alma — e o corpo dos pacientes também.


 

Publicado no Correio Braziliense de 19 de novembro de 2008

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Quarta-feira, Novembro 12, 2008

 

As mulheres e os homicídios

    As mulheres participam de homicídios em tres capacidades: como autoras, como vítimas e como motivo. A pesquisa sobre cada uma dessas capacidades exige dados diferentes e produz um conjunto de conclusões. No Brasil, infelizmente, os únicos dados utilizáveis são sobre vitimização. O que podemos fazer é analisar os dados disponíveis, "tirando-lhes todo o suco", e agir politicamente para que dados de outra ordem sejam coletados e/ou melhorados. É tarefa de médio prazo.

    Morrem mais homens assassinados do que mulheres, tanto em números absolutos, quanto em taxas sobre a respectiva população. Essa generalização vale para todas as áreas do mundo em todos os períodos sobre os quais temos informações. Porém, a razão entre as taxas varia no tempo, no espaço e de acordo com outras características, como o tipo de homicídio, o local do crime, a idade da vítima, a arma etc.


 

Comecemos com as taxas globais no Brasil: arredondando, a taxa masculina é dez vezes a feminina. Porém, essa razão não é a mesma em todos os lugares. Há muita variação entre as regiões do mundo tanto no que concerne as taxas globais de homicídio, as taxas específicas por gênero e a razão entre as taxas. A . Reza, J. A. Mercy e E. Krug, usando dados relativos a 1990, calcularam as taxas masculinas e femininas, ajustadas pela idade, de várias regiões do mundo. No mundo como um todo, a taxa masculina era 16,2 (por 100 mil hbs) e a feminina era 4,8. Porém, essas médias mundiais escondem grandes disparidades espaciais: nos países com economia de mercado desenvolvida (exceto os Estados Unidos), a taxa masculina era 1,1, mas chegava a 78,5 na África Sub-Sahara e a 40 na América Latina e no Caribe. Já a feminina variava de 0,8 também nos países com economia de mercado desenvolvida (exceto os Estados Unidos), a 12,7 na África Sub-Sahara, passando por 6,1 na Índia.

    A razão entre as taxas abre caminho para novas pesquisas e análises: em países que, em 1990, eram muito diferentes, como a Índia, a China e o bloco dos países com economia de mercado desenvolvida, a taxa masculina era, aproximadamente, um terço maior do que a feminina. As regiões com taxas mais altas de homicídio, a África Sub-Sahara e a América Latina (incluíndo o Caribe), as diferenças eram muito maiores: 618% e 769%, respectivamente – as taxas masculinas eram seis e mais de sete vezes mais altas do que as das mulheres. Semelhança entre as taxas masculinas de dois ou mais países não significa semelhanças entre as respectivas taxas femininas e vice-versa. No Crescente do Oriente Médio, predominantemente muçulmano, a taxa masculina era aproximadamente duas vezes (226%) a feminina, mas nos Estados Unidos, predominantemente cristão, era quase quatro vezes (379%). As taxas femininas das duas áreas, 4,7 e 4,2, eram relativamente próximas, a despeito de vasta diferença nos papéis e autonomia da mulher nos dois contextos. A grande diferença era entre as taxas masculinas. Às vezes, em países semelhantes, há tanto diferenças quanto semelhanças. A taxa masculina de homicídios na Escócia em um período de dez anos, 1985-94, foi 2,9; embora baixíssima por padrões brasileiros, era mais do dobro da da Inglaterra e do País de Gales (que era 1,3), ao passo que as duas taxas femininas eram semelhantes: 1,0 e 0,9, segundo equipe da Universidade de Lancaster.

    Alguns dados nos forçam a olhar cuidadosamente para o tipo de homicídio. O infanticídio é um dos tipos de homicídio com características próprias. O maior infanticídio feminino (de 0 a um ano) foi observado na China, 15,5 por cem mil; seguido pela América Latina e o Caribe, com 15, e pela Índia, com 12,3. O infanticídio tem causas, autores (os mais freqüentes são a mãe e o pai) e tem associações com variáveis que não pesam ou pesam pouco em outros tipos de homicídio. Porém, o infanticídio expressa problemas que variam no tempo e no espaço. No Oriente, êle tem características específicas e não é por acaso que as taxas de suicídio feminino são altas na China e na Índia. A China tem, de longe, a mais alta taxa de suicídio feminino do mundo (33,6), aparecendo a Índia em distante segundo, com 11,4. Os traços culturais que parecem levar a altas taxas de suicídio feminino podem estar associados com as altas taxas de infanticídio feminino.

    Uma das classificações dos homicídios separa os homicídios entre íntimos dos demais.     Em quase todas as pesquisas, esse tipo de homicídios é mais frequente entre as mulheres. Porém, Block e Christakos mostram que a trama é ainda mais complexa: elas pesquisaram os homicídios "entre íntimos" ocorridos em Chicago durante um amplo período, 29 anos, demonstrando que há combinações específicas de gênero, raça e idade, assim como disponibilidade de armas, que aumentam ou diminuem consideravelmente a probabilidade de homicídio. O risco mais alto era para cônjuges negros, especialmente homens. As autoras constataram um declínio de longo prazo nos homicídios entre íntimos em todas as categorias raciais e de curto prazo (os dados terminaram em 1993) somente para não-negros. A presença de armas de fogo na casa multiplicava o perigo de vitimização para as esposas, companheiras e namoradas (que foram vitimadas principalmente por revólveres, pistolas, armas automáticas e semi-automáticas) e aumentava um pouco para os homens, uma vez que as mulheres usavam facas e outros instrumentos cortantes e perfurantes para matar seus companheiros com freqüência relativamente maior.

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Quarta-feira, Novembro 05, 2008

 

Um discurso, há mais de 45 anos...

No dia 28 de agosto de 1963, em Washington, DC, Martin Luther King, Jr., um pastor batista, lutador pela igualdade e pelos direitos civis de todos, fez um discurso que marcou época. Ficou conhecido como o I Have a Dream Speech. No ano seguinte, o chamado 1964 Civil Rights Act foi aprovado, e os direitos civis se tornaram lei. Pouco depois, Martin Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz. No dia 4 de abril de 1968, Martin Luther King foi assassinado a tiros. James Earl Ray foi condenado a 99 anos de prisão pelo assassinato. Ray cometera vários crimes e fora condenado a vinte anos de prisão por ser criminoso contumaz, mas fugiu da prisão. Morreu há pouco mais de dez anos. Infelizmente, não viveu para ver o triunfo da justiça e do movimento da igualdade racial nos Estados Unidos, que atingiu o seu ápice mais recente com a eleição de Obama.

Abaixo, o discurso original de King:

"I am happy to join with you today in what will go down in history as the greatest demonstration for freedom in the history of our nation.

Five score years ago, a great American, in whose symbolic shadow we stand today, signed the Emancipation Proclamation. This momentous decree came as a great beacon light of hope to millions of Negro slaves who had been seared in the flames of withering injustice. It came as a joyous daybreak to end the long night of their captivity.

But one hundred years later, the Negro still is not free. One hundred years later, the life of the Negro is still sadly crippled by the manacles of segregation and the chains of discrimination. One hundred years later, the Negro lives on a lonely island of poverty in the midst of a vast ocean of material prosperity. One hundred years later, the Negro is still languishing in the corners of American society and finds himself an exile in his own land. So we have come here today to dramatize a shameful condition.

In a sense we have come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the unalienable rights of life, liberty, and the pursuit of happiness.

It is obvious today that America has defaulted on this promissory note insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked "insufficient funds." But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. So we have come to cash this check — a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice. We have also come to this hallowed spot to remind America of the fierce urgency of now. This is no time to engage in the luxury of cooling off or to take the tranquilizing drug of gradualism. Now is the time to make real the promises of democracy. Now is the time to rise from the dark and desolate valley of segregation to the sunlit path of racial justice. Now is the time to lift our nation from the quick sands of racial injustice to the solid rock of brotherhood. Now is the time to make justice a reality for all of God's children.

It would be fatal for the nation to overlook the urgency of the moment. This sweltering summer of the Negro's legitimate discontent will not pass until there is an invigorating autumn of freedom and equality. Nineteen sixty-three is not an end, but a beginning. Those who hope that the Negro needed to blow off steam and will now be content will have a rude awakening if the nation returns to business as usual. There will be neither rest nor tranquility in America until the Negro is granted his citizenship rights. The whirlwinds of revolt will continue to shake the foundations of our nation until the bright day of justice emerges.

But there is something that I must say to my people who stand on the warm threshold which leads into the palace of justice. In the process of gaining our rightful place we must not be guilty of wrongful deeds. Let us not seek to satisfy our thirst for freedom by drinking from the cup of bitterness and hatred.

We must forever conduct our struggle on the high plane of dignity and discipline. We must not allow our creative protest to degenerate into physical violence. Again and again we must rise to the majestic heights of meeting physical force with soul force. The marvelous new militancy which has engulfed the Negro community must not lead us to a distrust of all white people, for many of our white brothers, as evidenced by their presence here today, have come to realize that their destiny is tied up with our destiny. They have come to realize that their freedom is inextricably bound to our freedom. We cannot walk alone.

As we walk, we must make the pledge that we shall always march ahead. We cannot turn back. There are those who are asking the devotees of civil rights, "When will you be satisfied?" We can never be satisfied as long as the Negro is the victim of the unspeakable horrors of police brutality. We can never be satisfied, as long as our bodies, heavy with the fatigue of travel, cannot gain lodging in the motels of the highways and the hotels of the cities. We cannot be satisfied as long as the Negro's basic mobility is from a smaller ghetto to a larger one. We can never be satisfied as long as our children are stripped of their selfhood and robbed of their dignity by signs stating "For Whites Only". We cannot be satisfied as long as a Negro in Mississippi cannot vote and a Negro in New York believes he has nothing for which to vote. No, no, we are not satisfied, and we will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream.

I am not unmindful that some of you have come here out of great trials and tribulations. Some of you have come fresh from narrow jail cells. Some of you have come from areas where your quest for freedom left you battered by the storms of persecution and staggered by the winds of police brutality. You have been the veterans of creative suffering. Continue to work with the faith that unearned suffering is redemptive.

Go back to Mississippi, go back to Alabama, go back to South Carolina, go back to Georgia, go back to Louisiana, go back to the slums and ghettos of our northern cities, knowing that somehow this situation can and will be changed. Let us not wallow in the valley of despair.

I say to you today, my friends, so even though we face the difficulties of today and tomorrow, I still have a dream. It is a dream deeply rooted in the American dream.

I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: "We hold these truths to be self-evident: that all men are created equal."

I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood.

I have a dream that one day even the state of Mississippi, a state sweltering with the heat of injustice, sweltering with the heat of oppression, will be transformed into an oasis of freedom and justice.

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.

I have a dream today.

I have a dream that one day, down in Alabama, with its vicious racists, with its governor having his lips dripping with the words of interposition and nullification; one day right there in Alabama, little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls as sisters and brothers.

I have a dream today.

I have a dream that one day every valley shall be exalted, every hill and mountain shall be made low, the rough places will be made plain, and the crooked places will be made straight, and the glory of the Lord shall be revealed, and all flesh shall see it together.

This is our hope. This is the faith that I go back to the South with. With this faith we will be able to hew out of the mountain of despair a stone of hope. With this faith we will be able to transform the jangling discords of our nation into a beautiful symphony of brotherhood. With this faith we will be able to work together, to pray together, to struggle together, to go to jail together, to stand up for freedom together, knowing that we will be free one day.

This will be the day when all of God's children will be able to sing with a new meaning, "My country, 'tis of thee, sweet land of liberty, of thee I sing. Land where my fathers died, land of the pilgrim's pride, from every mountainside, let freedom ring."

And if America is to be a great nation this must become true. So let freedom ring from the prodigious hilltops of New Hampshire. Let freedom ring from the mighty mountains of New York. Let freedom ring from the heightening Alleghenies of Pennsylvania!

Let freedom ring from the snowcapped Rockies of Colorado!

Let freedom ring from the curvaceous slopes of California!

But not only that; let freedom ring from Stone Mountain of Georgia!

Let freedom ring from Lookout Mountain of Tennessee!

Let freedom ring from every hill and molehill of Mississippi. From every mountainside, let freedom ring.

And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and every hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God's children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, "Free at last! free at last! thank God Almighty, we are free at last!"

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Quarta-feira, Outubro 29, 2008

 

Mães maconheiras, filhos delinqüentes

    Há várias pesquisas que demonstram que a exposição pré-natal às toxinas do álcool e dos cigarros aumentam o risco de delinqüência para os filhos e filhas quando atingem a adolescência. Pesquisas mais recentes demonstram que o uso de maconha pela mãe também aumenta o risco de delinqüência dos filhos e filhas anos mais tarde. L. Goldschmidt e outros pesquisadores acompanham 600 mulheres de baixa renda durante uma década após darem a luz. Aos dez anos de idade, os pesquisadores aplicaram uma bateria de testes, inclusive alguns preenchidos pelos professores e professoras. Os resultados mostram que a exposição pré-natal à maconha provocam hiperatividade, impulsividade e dificuldades com a concentração e a atenção. Os primeiros sintomas de delinqüência apareceram com muito maior freqüência entre os meninos e meninas cujas mães fumaram maconha durante a gravidez. Essa relação se manteve depois que variáveis relevantes foram controladas.

Esses problemas não foram surpresa para os pesquisadores. Quando as crianças tinham apenas seis anos de idade, os sintomas já estavam presentes. Na escola, professores avaliaram as crianças no segundo e no terceiro semestre: aqueles cujas mães tinham fumado maconha tinham comportamento delinqüente com muito mais freqüência que os demais, ainda que igualmente pobres. Piores foram os resultados sobre a inteligência dos meninos e meninas, cujos escores nos testes de inteligência eram consideravelmente mais baixos.

Muito antes, outro estudo, dirigido por Peter Fried concluiu que o uso de maconha pela mãe reduzia a capacidade das crianças de controlar o impulso e sua capacidade de avaliar situações, mas não produzia uma redução na inteligência.

Os resultados da pesquisa dirigida por Goldschmidt, que foi maior e longitudinal, foram piores.

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Ver "Effects of prenatal marijuana exposure on child behavior problems at age 10," L. Goldschmidt, N. L. Day, and G. A. Richardson, Neurotoxicology and Teratology, Vol. 22, No. 3, May-June 2000, págs. 325-336, e

"Effect of prenatal marijuana exposure on the cognitive development of offspring at age three," N. L. Day, G. A. Richardson, L. Goldschmidt, N. Robles, P. M. Taylor, D. S. Stoffer, M. D. Cornelius, and D. Geva, Neuro-toxicology and Teratology, Vol. . 16, No o. 2, March-April 1994, págs. 169-175.

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Terça-feira, Outubro 21, 2008

 

Políticas Inteligentes Reduzem os Crimes Violentos em Minas Gerais


Políticas Inteligentes Reduzem os Crimes Violentos

em Minas Gerais


 

No Brasil de hoje, sobretudo no que tange a Segurança Pública, as boas notícias são escassas. Por isso, devemos exultar quando aparece uma realmente boa. É o caso dos crimes violentos em Minas Gerais. Primeiro, porque os dados são sérios, categorizados e organizados pela Fundação João Pinheiro (FJP), segundo porque eles indicam melhoria.

O Estado de Minas Gerais era conhecido como uma área comparativamente segura: poucos crimes, pouca violência. Ano trás ano, Minas era um dos três ou quatro estados menos violentos do país, muito mais seguro do que os vizinhos São Paulo e Rio de Janeiro.

A partir de 1995, o estado amargou um crescimento contínuo da taxa de crimes violentos durante oito anos: de 136, chegou a 542 em 2003. Não obstante, a partir de 2003, políticas inteligentes foram aplicadas, a PM e a PC se reestruturaram e a taxa começou a baixar. Os últimos dados, diligentemente organizados pela FJP, mostram que houve quatro anos de melhorias, até 2007, quando a taxa atingiu 431.

A taxa de homicídios teve um comportamento um pouco diferente: variou pouco, mas num nível baixo, entre 1986 e 1995. Em 1989 chegou a 11,7, a taxa mais alta desse período. Durante esses dez anos, nunca baixou de nove nem superou 12. Porém, a partir de 1995, observou-se uma escalada da taxa de homicídios, que dobrou de 9,6 a mais de 20 em 2005. As medidas implementadas a partir de 2003 só se fizeram sentir depois de 2005. Portanto, a taxa de homicídios acompanha parcialmente a taxa de crimes violentos. As semelhanças, porém, não devem ofuscar as diferenças.

Minas Gerais é um estado com algumas características que, juntas, o separam dos demais:

  • Até 1995, tinha taxas de violência e de homicídios muito baixas para o Sudeste;
  • De 1995 a 2003 dobrou a taxa de homicídios e quadruplicou a taxa de crimes violentos (embora as melhorias na coleta de dados possam ter influenciado um pouco o crescimento);
  • Descontados os homicídios, a taxa de crimes violentos sextuplicou no período;
  • Esse período de crescimento coincide com duas administrações do governo do estado;
  • A partir de 2003 a 2005, as políticas públicas inteligentes adotadas passaram a produzir resultados, reduzindo as duas taxas;

Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o crescimento dos homicídios foi pior: a taxa saltou de 13,5 em 1997 para 47, em 2004. Em 2005, observou-se uma redução, que foi continuada em 2006 e 2007. Em 2007, a taxa foi de menos de 37 por 100 mil habitantes, uma queda de dez pontos em três anos.

Os dados referentes ao primeiro semestre de 2008 confirmam a tendência à queda dos homicídios: houve uma redução de mais de mil homicídios em relação a 2006. O que houve? Minas era um exemplo da triste fragmentação da segurança pública.

 

Tristemente separadas pela Constituição de 1988, a Polícia Militar e a Polícia Civil não estavam sequer subordinadas a um único órgão: a PM, vinculada ao governador, ao passo que a Secretaria de Segurança Pública era difícil de separar da Polícia Civil. O sistema penitenciário e o tratamento dos adolescentes infratores estavam em uma terceira instituição, a Secretaria de Justiça e de Direitos Humanos. Como sublinha Luis Flavio Sapori, "era inviável o planejamento e a execução de uma política de controle da criminalidade". A criminalidade é, também, um problema de gestão. Em janeiro de 2003, foi criada a Secretaria de Estado de Defesa Social, ficando as duas polícias operacionalmente subordinadas a elas, ainda que mantendo suas autonomias administrativas. Foi criado o Colegiado de Integração, presidido pelo Secretário do qual participam a chefia das polícias militar e civil, da administração prisional, da Defensoria Pública e do Corpo de Bombeiros Militar. O Colegiado se reúne semanalmente. É medida semelhante à tomada por Giuliani em Nova Iorque. Além disso, essa Secretaria se transformou em órgão essencialmente técnico e não num cabide para políticos eleitoralmente fracassados.

Segurança Pública requer recursos. Porém, os investimentos estaduais em segurança pública eram pífios: entre 1996 e 1998 foram gastos menos de 30 milhões de reais anualmente; no governo seguinte os investimentos praticamente desapareceram: 1,3 milhões de reais. Esse descaso se traduziu em crime, violência e mortes. No governo seguinte, os investimentos anuais superam 90 milhões de reais, atingindo 165 milhões de reais em 2006.

Um dos problemas crônicos e sérios da segurança pública no estado era o da insuficiência do sistema prisional, que gerava superlotação, rebeliões, e um número crescente de mandados judiciais não executados. Foram construídas onze penitenciárias e oito cadeias públicas, abrindo dez mil novas vagas, reduzindo a altíssima densidade das prisões.

E o know-how? Minas dispõe de instituições acadêmico-administrativas exemplares na área do crime e da violência: a Fundação João Pinheiro organizando e disponibilizando os dados e o CRISP realizando pesquisas e treinando pessoal, inclusive policiais, numa parceria de algumas décadas, que somente agora começa a ser ensaiada em outros estados;

Essa parceria gerou programas exitosos, como o Fica Vivo!, planejado para reduzir a criminalidade juvenil, implementado em maio de 2003, que já produziu resultados mensuráveis. Esses programas não apareceram por acaso: foram pesquisas do CRISP e da FJP que determinaram que o crescimento da criminalidade na RMBH se devia à proliferação do tráfico de drogas, em especial do crack, que estava nas mãos de gangues jovens. As gangues juvenis eram esqueleto organizacional da epidemia de violência. Políticas inteligentes não são feitas na base do chute, mas de pesquisas sérias.

As parcerias do CRISP atravessaram as fronteiras estaduais, atingindo prefeituras e governos estaduais em outros estados. Não é de hoje: o Curso de Especialização em Estudos de Criminalidade e Segurança Pública está sem seu oitavo ano, tendo recebido mais de trezentos alunos. Nada menos de 146 deles são policiais militares e 83 são policiais civis. O Curso de Analista de Crimes treina os alunos na utilização de softwares analíticos, inclusive de geo-processamento. Já foi oferecido 19 vezes. A FJP, por sua vez, vem treinando policiais desde 1984/5. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, um curso semelhante, enfatizando o processamento policial e judicial dos crimes é proposto na UFF por uma equipe competente, mas encontra ferrenha oposição da parte de professores e estudantes radicais e em São Paulo a PM não estimula o aperfeiçoamento de seus oficiais em instituições civis; em muitos estados, os policiais rejeitam os pesquisadores baseados na crença de que somente policiais sabem e podem saber de crime...

Há, não obstante, problemas. Não encontramos dados sobre os autos de resistência ou sobre as "mortes legais". Ninguém nega, mas ninguém entrega. Mineiramente, desconversam e não respondem.

Minas Gerais é, portanto, um estado a ser estudado. As relações entre pesquisadores e operadores do sistema, entre os mundos acadêmico e policial, atingiram o mais alto nível do país. O rápido crescimento da violência geral, da violência não homicida e dos homicídios, assim como o controle dessa explosão tornaram Minas Gerais um estado sui-generis, onde há muito que pesquisar e de onde há muito que aprender.
Para mais dados sobre homicídios no Brasil, clique aqui
Sobre São Paulo, clique aqui, aqui e aqui
Sobre o problema dos dados sobre homicídio em Pernambuco, clique aqui

GLÁUCIO ARY DILLON SOARES

IUPERJ E CPDOC (FGV)

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